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Caleidoscópio

Como controlar o inexprimível fardo do poeta?
Como calar os intentos dessa vida absurda e excessiva?
De que maneira poderei equilibrar as forças que me habitam, se sou acima de tudo o caos e a desordem?
Como dizer ao poeta a palavra da paz e do silêncio se a poesia nasce do descompasso dos tempos vividos?
Poderia eu elucidar as angústias dos desejos irracionais que me inundam?
Ou racionalizar as memórias carregadas do peso inenarrável da sensibilidade?

Impossível.

Para nós, devoradores de encontros, toda despedida é como a morte.
Ao mesmo tempo que todo despertar é uma entrega densa e desenfreada.
Não há poder que possa impedir a inundação.
Somos todos condenados a poesia não vivida.

Cada evento cotidiano está atrelado ao escândalo
Cada amor à eternidade das ilusões passageiras
Cada sentido à sua grande experiência sensorial
E cada poeta à responsabilidade mundana de seus versos.

(Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2013)

 

A ESPERA

Seduzem-me as madrugadas
Pois são nelas que sussurro tua chegada
Com esperança, penso que não demoras
Apenas pegou um trajeto mais longo
No qual, florescem Ipês e Amoreiras

Já separei aquele vestido
E me arrumei como se pudesse florir também
Já te disse que sou vaidosa

Não hesitarei e entregarei a ti
a minha vida
Embora não saiba teu endereço
Mas confirmo o encontro
Está marcado, não venhas com mais desculpas

Naquele cruzamento entre o devaneio e a incerteza
Me aguardas
Não sei se te reconhecerei
Não conheço tua face

Mas penso em tuas mãos
deslizando sobre minhas certezas
Acariciam meus apelos
E assim
Já me esqueço do vestido
Me dispo em ti

Não sei tua história
Nem quantos amores tivesses no passado
Sei que a tua chegada é doce
E lambuzo-me em teus frutos

Me presenteias com sentimentos imutáveis
Com um amor que permanece
Emaranhado em mim

Retribuo com um sorriso
Já te disse que demoraste?
Fiquei ansiosa
E até pensei
Que tu existias

Entrelinhas

Mistério,
Goles longos de inquietude
Vontade de futuro,
Ah, e esse peso das certezas…

Você deixa em mim
Sinais de vontade,
Olhares duvidosos
Cheios de malícia…

Decifra-me em analogias
Transcreva-me em poemas
Me ame em enigmas…

Silêncio,
Guardo nas madrugadas
O calor hesitante
O passo incerto
Todo esse não dito…

Já é hora de escancarar as janelas
Desmascarar os labirintos
Incendiar os receios..

Agora, amor
Já não basta os indícios
Pois além de todos os resquícios
Quero-te, apenas isso…

Fechei a mala apressada.

Subi e desci as escadas inúmeras vezes. Antes de partir, me certifiquei de que não havia esquecido nada. Retornei a casa  e olhei minuciosamente cada cômodo à procura de algum vestígio.

Percebi que na realidade eu procurava a mim mesma. Quantos fragmentos de mim eu estava deixando para trás? De que parte do meu ser eu sentiria saudade quando retornasse à minha casa? Não podia prever o que estava sendo abandonado ali. Sei que me sentia estranha e vazia enquanto caminhava até o táxi.  Minhas palavras se perdiam em meio aos meus passos e por um instante já não sabia se meu corpo ou minha mente que estavam perdidos.  Tropeçava nos meus sentimentos errantes e inquietos.

Sim, aquela parte de mim que abandonara me fazia falta. Mas ao mesmo tempo, me sentia estranhamente aliviada por tê-la deixado lá. Mesmo eu não sabendo quem eu seria a partir de agora.

Onde havia deixado aquele pedaço desconhecido de quem eu era? Em que momento me perdi e abandonei, determinada, aquilo que outrora sabia de mim? Qual fora o segundo crucial em que me entreguei à possibilidade de voltar daquele lugar sem a bagagem do passado?

Revistei minhas memórias a fim de encontrar o paradeiro do meu ser abandonado. Relembrei cada local que passei naqueles últimos dias. Momentos sopraram. Pessoas, palavras, poesias, músicas, sabores, olhares. Sem sucesso não consegui me reencontrar em minhas lembranças.  Naquele momento eu era tudo aquilo que havia vivido.

Havia eu me perdido em meio aquele recente turbilhão que me atravessara o peito durante minha estadia na cidade? Onde eu estaria senão dentro de minhas experiências e encontros?

Naquele instante em que nos debruçamos hesitantes sobre o outro, em que olhamos curiosos diante do enigma do entendimento; no impulso dado para mergulhar em histórias, alheias a nós, é lá que nos perdemos. Entregamos a chave de nossa existência para que alguém possa nos mobiliar de ínfimas sensações, voláteis sentimentos.

E logo, não somos mais o que éramos. Pois toda despedida é também encontro.

Dizia adeus àquilo que eu era enquanto cumprimentava cordialmente aquilo que vinha sendo acrescentado ao meu ser. Nos deixamos  um pouco em cada lugar. E dele recebemos a capacidade de nos tornarmos inesquecíveis.

( Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 2012)

13

 

“Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre

Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás – como se diz – a casa térrea –
Construirás a partir do fundamento..”

 

I

Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

Espelhos

Prefiro as ilusões,
Esses mutáveis e belos pedaços de acaso.
Prefiro-as por sua liberdade,
indomável e urrante.
Bebem do descontrole
Embriagadas, ilusões passageiras.

Não conheço seus corpos,
Nem posso tocá-las
São como brisas de verão,
sinto-as, não posso possuí-las.

Não me queira dar o peso da realidade
Não quero certezas empilheiradas,
fechadas em suas próprias limitações.

Gosto das ilusões,
dançarinas dos momentos,
filhas do efêmero,
e mães da poesia.