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Archive for outubro \27\UTC 2012

Florescer

Brotam
Diariamente
Pequenas sementes douradas
A elas, dei o nome de esperança
Pois hei de germiná-las por toda a vida

Seus frutos?
Olhares curiosos de néctar doce
Polpa firme e seiva farta
Cultivo-as por vontade
são belas as flores
E certamente irei florescer
Na próxima primavera

Trago em mim
O impulso da mudança
E nem me importo
Em ceder todo meu ser
A esse plantio desenfreado

Para as flores, meu ventre é sempre terra fértil
Pois rego-o somente com amor
Crio-me em meio as suas folhas
E em cada semente
Deposito meus sonhos mais intensos

Mesmo sabendo que não são minhas as flores
Admiro-as com paixão
Pois pertenço unicamente a mim
E a esta terra
E nem ouso querer a posse
Pois tanto ela quanto a vaidade e o orgulho
São como ervas daninhas

É preciso aprender a doar-se
Pois são nos corações fartos
Que nascem os mais deliciosos frutos

Que não tem nome
Nem o gosto lhes é conhecido
não se pode encontrá-los nas feiras
Tampouco em bosques floridos
Mas para mim
Eles são como a própria vida
Que me alimenta
Ao mesmo tempo que me suga
os nutrientes,
os amores,
as lembranças,
as raízes.

 

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Sem título

E são tantas estradas, que na esquina de mim, me perco.
Os rios desaguam naquilo que não sou.
Ao meu futuro, um brinde ao acaso.

Aos caminhos que me levam novamente de volta a inquietude. 
Ao poeta que me habita e me consola nesses momentos de mudança.

A alma se ilumina perante a ignorância.

De se saber poeta, pequeno e eternamente entregue ao mundo, seus rios e estradas.

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Ao contrário do peso, a leveza

Tenho aprendido somente a ser mais calma..a não ir me atropelando pelos caminhos, não ir querer optar e escolher quando não existem escolhas dadas. A vida me ensinou a não ter pressa de vivê-la. E ao mesmo tempo, a respeitar a sabedoria do tempo, deixando que tudo flua naquilo que eu chamei carinhosamente de ordem-de-todas-as-coisas-do-universo. E o pior de tudo, ela é justa, coerente e sempre quando eu sinto que estou correndo demais, o mundo me freia e sussurra: seja mais leve.

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Sonhos

Depois de aquietar os intentos,
deito-me sobre mim.
Livre de qualquer inquietude
restou-me apenas um verso,
Um suspiro de quem eu era.
O pulsar do que gostaria de ser agora

Depois de mim, restou-me apenas eu.
Não mais amores, não mais lágrimas
Um sorriso em meio à madrugada e
uma saudade doída
de querer reviver antigas quimeras

Não carrego mais o peso da ansiedade
Nem bate em mim um coração de criança
Sou pouco mais do que disponho:
Uma xícara de chá e um lençol lilás

Mas ainda há dentro de mim
Essa vontade única de sonhar
Que me transporta
a esses tantos mundos fantásticos

E quando desperto
Já não sei quem sou, pois deixo em sonho
Tudo que outrora sabia de mim…

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Sobre as estações

Vinte e dois anos.

Repetição simétrica do tempo. Vinte e duas primaveras. E nenhuma como essa.

Não estou falando do conceito usual do termo. Ainda não vira nenhuma árvore florescer.

Para ser sincera, nessa cidade de mais avenidas que corações nunca tinha visto qualquer alteração física entre as estações.

Na primavera passada, Amélia se apaixonou. Se apaixonou por algumas rosas e um poema inacabado. As flores morreram e o poema, reescrito. E ficou medíocre. Já tinha escrito coisas muito melhores. A paixão demorou a se retirar. Viveu muito tempo como inquilino inadimplente. Deixou dívidas e muitas contas além da data do vencimento. Mas era bom tê-la ali. A gente nunca sabe o quão calorosa é uma paixão. Por mais platônica e impossível que seja.

Mas Amélia estava cansada de beber goles de ilusão. E constatou com um pouco receio que estava só, com dois pés de manjericão e uma pimenteira. Que lhe fizeram companhia até o misterioso dia em que a pimenteira suicidou-se. Minto, não se sabe se a morte foi intencional. Talvez algum vento forte a tenha levado contra vontade.

Nessa época deveria ser outono, fatalmente.

 Amélia arrumou um emprego, juntou algum dinheiro e trocou o amor por temakis. Inenarrável sensação ao devorá-los, a tentação foi tão grande que ficou levemente viciada por alguns meses. Amélia leu dez livros, incorporou mais algumas palavras ao seu vocabulário. Foi quando descobriu que além dos temakis também poderia se deleitar com outra paixão. Declamar poesias. E desde então, resolveu concorrer com o tempo e cada vez escrever mais e mais. Amélia escreveu milhares de versos, ganhou um concurso de literatura e percebeu que amores a gente pode inventar muitos por aí. Fictícios, é claro.

Não causam desastres e nem dúvidas.

A menina Amélia, com sua sede de juventude queria mais. Cansou-se do emprego e sentiu-se absolutamente estagnada. Cansou-se também das festas e dos homens. Mas nunca foi capaz de abandonar a cerveja. Nem o vinho. Cachaça. É, ficar sem beber já era pedir demais.

Amélia tomou trinta e dois porres e teve medo pelo seu fígado.
Ouviu Angela Roro e se identificou com ela.

Mas Amélia não estava satisfeita. Queria mais. Não temakis ou porres. Amélia começou a ler Osho, comprou quinze incensos na lojinha cigana e desde então, não dorme mais sem eles.

Voltou a estudar bruxaria, encontrou a paz e decorou o CD inteiro do Gilberto Gil.
Ela se mudou de casa, pendurou seus quadros agora em paredes opostas. Dançou forró e causou vergonha aos amigos enquanto cantava.

Até o dia em que Amélia se viu exausta em querer. Decidiu entregar ao acaso suas próprias memórias.

Amélia resolveu optar pela leveza da paciência imposta. Cozinhou legumes ao forno e inventou receitas.  Refletiu seriamente que as verdades que buscava levavam sempre ao mesmo lugar.

Ela mesma.

Em setembro veio a primavera. Amélia arrumou um novo emprego e chorou ao som de Debussy. A primavera escancara as janelas sensíveis da alma. E Amélia pensou que apesar de todas essas florescências juvenis, ainda sim, tudo poderia ser algum absurdo que se sobrepõe as próprias verdades. Alguma força que te encaminha para a vida quase delirada. E que era, apesar de inevitável, uma escolha irrecusável.

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