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Archive for setembro \18\UTC 2012

Gastronomia

Devorei corações esquivos e medrosos
Minha gula é pelo tempo
Mastiguei minha própria ansiedade
E engoli ilusões mais do que saudade

Hoje a calma me contempla
Foi-me ensinado a força a paciência
Aprendi enfim,
lições de etiqueta

Não mais me deleito em banquetes
Aguardo sem pressa
Somente aprimorar as receitas.

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Efervescência

Deu um trago longo no cigarro. Não entendia o porquê de tentar mascarar o gosto de tabaco com menta. Quer dizer, de menta aquilo ali não tinha nada. Mascarar o tabaco com uma essência de menta. Produzida artificialmente para algo ainda mais sintético, industrializado.
Não tinha o costume de fumar. Desse vício tinha escapado, talvez pela tangente, mas ainda assim, tinha conseguido se livrar, pelo menos disso. Gostava somente da leve tontura, provocada por dois ou três tragos. Mal acabara de soltar a fumaça e devolvera a amiga o cigarro pela metade.

” Sabe o que eu penso, Julia, não suporto essa coisa morna.”
” Que coisa morna? Do que você está falando?” Responde a amiga, confidente de crises e desabafos. De noites regadas à cerveja e cachaça mineira.
” Essa vida, Julia! Morna! Previsível, equilibrada, regrada. Um verdadeiro saco.”. Deu um gole na cerveja que esquentava na bancada do boteco. E continuou ” Eu não posso com isso. Preciso ferver. Sentir, explodir. As pessoas buscam rotina, cotidiano, planos seguidos em caderneta. Maior bobagem. Ficam assim, mornas.”
” E desde quando você é morna, Maria? Você vive nesse turbilhão, vai vê que você só está esfriando um pouco. Deixa de querer queimar a língua.”
” Aí que tá. Eu prefiro queimar a língua, a boca toda. Do que beber coisa morna. Gente morna. Paixão morna. Homens que dormem de meia de lã no verão. Mulher que não tem opinião, que não bebe, não fala. Mulher chaveiro com homem machista. Gente morna, Julia! Gente que quer se adaptar à tudo. Que acha que existe uma fórmula certa para viver, para amar, para sentir.” Desabafa.
” Ah mas pera lá, mas aí você está impondo que seu jeito que é certo? assim soa meio hipócrita, Má.” Diz a amiga em tom de reprovação.
Enquanto isso, o garçom do bar, um homem de meia idade, cabelo grisalho e barba rala, observa atentamente a conversa meio sem pé nem cabeça entre as amigas. Na realidade, não entendia o que duas moças, que deviam ter uns 20, 25 anos no máximo, estavam naquele boteco risca faca. Com samba de roda e cachaça barata. Nunca as tinha visto por lá.
” Não, Ju. É exatamente o contrário. Eu não vejo mal nenhum em fulano ou fulana querer ser morno. Só não quero isso pra mim, você entende? Tô de saco cheio de gente querer vir me dizer que é certo isso ou aquilo. De quem eu tenho que gostar, de como eu preciso levar a minha vida. E aí que tá. Vou terminar a faculdade e vou dar uma volta pelo mundo. Assim, meio sem destino. Mochila nas costas e vontade de vida. Preciso me sentir sem lar, sem finalidade, sem ideia do que vai ser a minha próxima madrugada.”
” Você vive dizendo isso, Maria. E acho que tem que ir mesmo. Vai viver. Quero ver é o que vão dizer teus pais.”
” Viu só, Julia. O que vão dizer os outros? A gente que nasce com a alma livre aprende a não se importar com opiniões. Por mais que aqueles que as tenham sejam pessoas do nosso mais verdadeiro afeto. O que eu quero te dizer, amiga, é que eu não sei porquê, mas só me sinto viva em vertigem, quando as coisas não são bem o que são. Simplesmente não gosto de acordar e saber que pelas próximas semanas eu já sei exatamente o que eu vou fazer. Por isso te chamei aqui hoje, em plena segunda-feira, para beber e falar desses devaneios irracionais da vida.”
Difícil se fazer entender, pensou. Na realidade, às vezes compreensão é um pouco como senso comum. A gente entende quando é óbvio, escancarado ali. Como alguém diz que tem horror a uma vida morna? Que metáfora mais sem sentido. Pois bem, estava tentando simplesmente explicitar a mais pura verdade. É claro que usaria metáforas. Odiava esse pensamento cartesiano banal. Abandonar as metáforas é o mesmo que assassinar qualquer possibilidade de poesia. Dessa poética do cotidiano, do dia a dia. O que mais a incomoda é saber que tinha uma alma em conflito. Em constante transformação. De perda e abandono, de vontades que pulsam e gritam sem motivo. De lágrimas na fila do ônibus. Essa sensibilidade aflorada que chora perante tudo aquilo que julga ser belo.
Uma idosa de roupa florida e cabelos ralos, tão ralos que mal conseguia cobrir a cabeça toda. Brancos, cândidos. Um sopro de inverno misturado com um olhar crepuscular de saber que depois da tarde vem apenas o anoitecer. Essa era imagem que tinha em mente naquele momento em que informava ao garçom para que trouxesse mais três garrafas. Como se aquela senhora fosse reflexo dos seus sentimentos mais profundos. Desde que sua avó havia falecido, tinha criado um estranho hábito de querer chorar diante de qualquer pessoa já idosa. E engraçado, nesse momento vinha um cheiro de polvilho quente, com erva doce. Típico prato dos cafés da manhã na casa de sua avó. Com certeza não era da cozinha suja do estabelecimento.
E junto com a senhorinha estava aquela juventude que a embriagava mais a cada gole, aquele ímpeto a loucura espontânea.
Pensou que um ser errante deve carregar dentro de si a velha e a menina que urra por querer ser livre demais.
Quando Maria nasceu, sua mãe lhe disse que ela era um espírito muito antigo e que vinha ao mundo com missões claras de evolução. Aquela senhora a olhava no fundo da alma e a lembrava que sabedoria não tem nenhuma relação com idade cronológica. Lembrou-se da frase de um livro, anotada em um papel rascunhado do caderno.
“Descobrimos que somos velhos não por causa do tempo que passa mas porque dentro de nós moram eternidades.”
Era um pouco de tudo isso, tudo agora ficando cada vez mais latente por causa da fila indiana de cervejas que iam se amontoando no balcão.
Talvez aquela imagem fosse a própria eternidade que existia dentro dela. Como conciliar a vontade de contemplação da velhice com o atropelo da existência recém adquirida? Será que seu destino era aquietar os instantes e tentar simplesmente esfriar até tornar-se morna. Serena, calma. Não morna não! Morno não tem nada a ver com paz de espírito. O termo que repetia incessantemente para amiga era mais para questionar a hipocrisia da vida sem balanços. Sem sustos. O inesperado se aproxima daqueles que ousam mudar os trajetos.
A antiga senhora, como anciã daquela alma confusa, a lembrava da quietude mas não dizia para parar de beber dos segundos.
“É preciso somente não errar na dose.” Sussurra docemente.
Não cair na tentação da gula.
Há seres que nos habitam que nos vem lembrar que somos fatalmente atrelados a nossa condição humana, de viver de dicotomias.
Há quem prefira a água em ebulição, pois quem sabe, depois de um vento gelado ela possa finalmente amornar somente quando as bocas já estão cheias de cicatrizes.

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