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Archive for abril \25\UTC 2012

Identidade

– Quem és? – pergunta Joana desconfiada – Não podes ser tu.
Os mesmos olhos de outrora. A mesma retina. A íris intacta. O timbre da voz, o sorriso diagonal, os cabelos castanhos. Porém, poderia jurar que mal se parecem. O viajante não pertence mais a essa terra. Solitária, permanecera à beira do cais.
O corpo já não exala cheiro de novidade. As mãos não abraçam o invólucro do encantamento, nem são as mesmas que desenharam carinhos em suas costas. O gosto doce do encontro, já não há. Partiste em uma jangada. Tinha certeza. Nem pude dar o último suspiro do adeus. – pensou. E rodeou feito louca as memórias e bebeu-as até esquecê-las. A matéria que envolve teu corpo não abriga o mesmo espírito.
– Quem foste?
Uma estranha familiaridade. Aquela imagem distorcida deixa apenas uma volátil lembrança daquele que amou. Será que realmente houve amor ou até isso ela fora capaz de inventar?
– Estou livre. – sussurra a moça.
Os tornozelos desprovidos das correntes da ilusão. O coração respira sem dificuldade, preocupa-se apenas em pulsar em paz. Como se ela tivesse agora brônquios sem asma. Alma sem vícios. Mas inconformada urra de saudade daquele que deixou de existir, aquele homem, que ele mesmo assassinou cruelmente com golpes de realidade.
– Já. Tu não és. Foste.

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Caminhada

A solidão, às vezes opcional me dá uma estranha sensatez a respeito de mim mesma. Rodeada de gostos, texturas, interesses…melodias,vozes e livros..

Como se nas entranhas do meu ser a minha essência mais pura agora estivesse legítima e inquestionável.

O descobrimento de si passa por caminhos tortuosos.

Insegurança, carência, ciúme.

E esses tantos outros questionamentos…intermináveis.

A cada passo, a cada retrocesso vou constatando ser mais e mais eu. E nessa dança eu-comigo não me importo de em alguns momentos desastrosamente pisar em meus próprios pés. Ah, como são produtivos esses tropeços.
Decidi definitivamente deixar a alma aberta, sempre.
Como janelas sem trava, sem vidro. Que não se quebram, não batem. Assim posso sentir a luz do sol com a mesma intensidade das chuvas torrenciais.
Nada anseio, nada se anula, sobre tudo eu crio.
E escrevo, enfim.

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Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem.  Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.

No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade. Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.

Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.
Lembro desse encontro, dessa primogênita primeira vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida. No entanto, algo nele aparentava distância. O último escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco aí mesmo se consumia.  Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas. Nesse mesmo pátio em que se estreava meu coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.
Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.
Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota. Porque eu não sou por mim. Existo refletida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu.
Um adeus à medida de meu amor.
Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.
Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns.

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A arte de reescrever

– Eu não tenho culpa de gostar de você. Essa responsabilidade não é minha.

– E é de quem então, Maria? Me diz que eu quero saber.

– Eu não sei. Talvez seja sua, nossa, da vida. Mas você não pode me culpar pelos meus sentimentos. Você sabe, quando a gente vai ver eles já tem corpo, forma e saem andando por aí. Eu não tenho controle do que sinto.

– Pois deveria.

– Deveria, mas não tenho. Eu sou descontrolada.

Alguns diálogos hipotéticos rondavam a cabeça de Maria. Será que um dia ele perguntaria algo assim, ou a acusaria desse amor que teima em continuar? O amor era ,às vezes, vergonhoso e marginalizado. Ela não queria que ele soubesse que depois de tudo:, vendavais, verões e tempestades, o sentimento continuava ali, intacto e inquebrável. Ela tinha medo de encontrá-lo e que as bochechas a entregassem. Corassem demais. As pernas tremessem demais. As mãos suassem em cachoeira. Como controlar aquilo que não se tem por querer? Se pudesse optar, ia  apagá-lo de vez. É rude pedir para alguém sumir da  história? E mesmo assim, mesmo com todos esses meses de distância, ele ainda estava ali. Em músicas, gavetas, livros, cheiros, comidas, esquinas, goles. É inútil avisar ao coração que o amor acabou.

Foram poucos dias de convivência para muito sentimento idealizado. A paixão de fato existiu, ou era uma projeção abstrata do que era ou do que gostaria que fosse, essa tal felicidade? Como questionar emoções? Elas respondem por impulso. E Maria, nunca fora muito racional, ainda mais quando se via assim, perdidamente apaixonada. Quem era então, o verdadeiro destinatário desse amor? O Fernando pensado ou o vivido? Difícil saber. Dizem que quando desejamos muito algo, isso  toma proporções absurdas. Se, por ventura, um dia ela pudesse consumar todo o amor reprimido. Seria suficiente? Ele daria a ela a vida que sonhou? Ou a graça , vem do fato de ser uma charmosa impossibilidade. As ideologias não morrem, pois nunca são atingidas.

Ela custava a crer que nada  havia sido real. O colar que esqueceu no banco de trás do carro, o vinho Merlot que tomaram, os pratos sujos na pia, as canecas de café. Tudo aquilo existiu. Porque só amor era invenção? Havia cúmplices e, por mais que eles não pudessem depor a respeito, estavam lá.

No início fora mais difícil. Quando segundos tortuosos a rasgaram por dentro e a voz de Fernando entoava a frase que mais parecia fagulhas de vidro.

– Sabe Maria, a gente precisa se afastar.

Alguém devia tê-la informado que a gente só se afasta do que é físico, carnal. Porque as lembranças continuam lá, infernizando e apertando o coração de quem foi deixada em casa com uma infinitude de carinhos. Onde guardá-los? Não coube na dispensa essa caixa abarrotada de amor não vivido. Cômodos são pequenos demais para guardar aquilo que não se vê. A palpável concretude que nunca existiu. E hoje, ela era apenas um apartamento vazio com saudade de uma mobília que nunca chegou.

E repetindo as historias  do que havia sido aquela relação  era como se pudesse viver tudo uma outra vez. E a vida fora marcada com um antes e um depois. Fernando fora mais que um divisor. Deixou marcas que jamais se apagariam, mesmo ao anoitecer. Uma dissertação desconexa e contínua.

E em noites inundadas, Maria tentava redigir a fim de exorcizar tudo o que não foi, não pode. Foram inúmeros textos e poesias. Parágrafos e versos.

Um dia, Maria recostou na antiga poltrona vermelha e leu no antigo livro em cima da bancada :

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

– Talvez Leminski tenha razão.

O texto despertava nela um eu repleto de inspiração. E o que restava senão reescrever essa história sem final?

– Preciso reescrever o nosso amor. – concluiu em epifania.

Foi o que fez. Em um domingo nublado e vazio. Por um momento, pensou que a responsabilidade do amor é somente daqueles que o vivem.

E se o amor é ficção,  ele nada mais é que um conto, perdido na noite. Que não acaba porque pode ser lido por corações fartos ou famintos.

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Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

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“Se escrevo sobre minha vida,

tenho que torná-la digna para tal.”

Nome próprio um filme de Murilo Salles 

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Nessa cadeira desconfortável e sem encosto, a madrugada enxerga da janela do apartamento vazio apenas uma luz. A tela de um computador velho em meio a cidade que dorme. Estrangeira, escrevo. Porque há alguns dias não pertenço a mim. E aonde eu fui? Eu não sei. Não me lembro. Só resta essa necessidade abrupta e quase fulminante de escrever. Como uma viciada qualquer busco não nos becos, mas nas palavras o conforto para minha inquietude. Injeto palavras e frases, me drogo com o que há de mais verdadeiro em mim, os meus textos. Na realidade, não são os textos em si. São os sentimentos que eu deposito neles. Esses travessos pedaços de mim que adoram vir me assombrar. E agora não posso mais dizer que é coração partido, decepção, tristeza. Tudo se resume a uma estranha e inesperada imersão em mim. Espero não me afogar com essa correnteza que me leva a estar aqui.
Enlouquecida pela inspiração só posso ouvir em meio a silêncios o dedilhar no teclado. Os olhos fixos, a cabeça que gira. Penso demais pra conseguir dormir. Não adianta nem tentar meditar. Há algo que precisa ser dito. Um átomo que gira em círculos dentro de mim e entra em atrito com minha mente. Esse átomo que chamei timidamente de literatura. Preciso escrever para desaguar o que há de mais humano em mim. E às vezes sinto, que ser humana demais é um passaporte para essa vida regada a intensidade. Se não sinto, não vivo. Mas se sinto demais, acabo me ferindo. E quando a ferida está aberta eu tento amenizá-la com novas emoções.E mais, mais, mais vida. No fim, acabo sempre machucada. Vou ter que encomendar uma nova pomada para esses hematomas todos que vem não sei da onde.
E será que escrever significa controlar? Sinto que saciar esse meu vício traz alívio. Eu preciso escrever sobre o que eu sou. Será que sou extremamente egocêntrica? Ou esse é o fardo que veio atrelado a minha existência?

Já foram três textos em três dias. Terei overdose de tantas palavras?

Quero mais. Vírgulas, letras, frases, pontos finais. Eu e essa minha vida de interrogações eternas. Quero exclamar!  Gritar!

Eu me faço sentido quando me coloco aqui. Imagino que algum dia possa existir um livro com essas minhas urgências e quem sabe, acalentar o coração daqueles que ainda não descobriram como fugir de si. Pois é assim que eu vejo os artistas. Aqueles capazes de nos dar respostas quando não podemos formulá-las. Que não seja ousadia minha achar que tenho esse dom.

Que eu possa tomar copos e copos de mim sem me embriagar.

E acima de tudo, que eu nunca deixe esse meu lado visceral que tem tanta necessidade de dizer o que não cabe mais do lado de cá.

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Rupturas

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Certa vez uma amiga me contou que as grandes sociedades só evoluem após uma crise generalizada. Uma crise que englobasse todos os aspectos sociais e também econômicos. São elas que provocam as reais mudanças, irreparáveis e definitivas.

Só quando o caos predomina que há a necessidade emergencial de instaurar ordens, de preferência, pré estabelecidas. E que essa mesma logística poderia ser aplicada individualmente nos seres humanos e suas vidas complexamente cotidianas.

Recordo-me das minhas outras tantas rupturas. E faço esforço para acreditar que só depois de períodos extremamente nebulosos que vem fases inundadas de luz.

Na minha absurda desordem voam estilhaços por todos os lados.

Explosão fulminante das minhas certezas.

E mal consigo enxergar agora, em meio a poeira, os escombros do que fui. Como quem tem a missão de reconstruir cidades tento visualizar como farei para penetrar nessa minha alma trincada.
Doloroso e libertador. Estou convicta de que é preciso mudar esse turbilhão que usualmente as pessoas chamam de ” minha vida”. Porque eu teimo em conceber a vida, não como uma sequência linear e tranquila e sim, como uma luta interior por sobrevivência. Preciso sobreviver aos meus venenos e a minha própria essência confusa. Difícil saber onde está a ferida quando eu mesma, traiçoeira me apunhá-lo. Tampouco sei como tratá-la. Existe remédio?

Quando você se auto boicota está reprimindo os desejos de quem?

Não podem existir tantas de mim em mim mesma. Ou melhor, elas só precisam viver em harmonia. E logo, tratei de fazer as pazes comigo. Vou separar cimento, tijolo, martelo e reconstruir aquilo que a realidade fez questão de destruir. E que eu fiz questão de ajudar.

Não choro pelas migalhas. Imagino novas e belas construções com direito à varanda, horta e vista pro mar.

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