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Archive for março \31\UTC 2012

Mulher

E aí, serei eu. Intacta, pura retina.
Louca, estática, imóvel.
Com a mente desconstruo.
Já, tu não és.
E não, agora tarde.
Foste.
Ser, não sendo.
No gole, espero.
Na desorientação, nego.
No telefonema aguardo.
No futuro incerto, me entrego.
E vou.

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Dos corações sujos

Os amores marcam, quebram, rompem. Como dizia Tom Jobim “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”.

As cicatrizes de um amor desiludido custam a parar de doer e sangrar. E parece que o mundo ao nosso redor sente a dor dessa ferida aberta. Não somos nós os únicos atingidos pelo golpe do desapego. Descobri que o maior egoísmo dos ex-apaixonados, ou ainda-apaixonados é emanar sua tristeza. Propositalmente ou não, é clara a vontade dos feridos de ferir. Como se fosse possível transferir pro outro a responsabilidade da perda.
E como na ciranda de Chico Buarque. Em que Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo, todos saem magoados. Por que? Há um tempo em que precisamos nos libertar das correntes apertadas do antigo amor. E estranhamente um fenômeno acontece : o mundo parece te deixar ainda mais apaixonante. Charmosa tristeza.
Será possível isso? Comprovo científica e empiricamente. O amor é traiçoeiro. A desilusão de um é uma explosão num todo. Fagulhas e corações partidos voando por todos os lados. Caos. Pobres são aqueles que ingenuamente não sabem disso e se apaixonam nesse momento fatídico.
Portanto, uma alerta. Atenção aos corações sujos. Eles espalham toda a imundície. Uma vez li em uma dessas frases banais de auto ajuda que só podemos nos dar ao desfrute do amor quando temos o coração vazio, puro, sem amarras. E temo que seja verdade. Nesse ciclo vicioso de sentimentos estamos todos. Eu, você e aquele que ainda irei amar. Nunca encontrei alguém que conseguisse ter se livrado por completo dessas impurezas da alma. Mas é preciso saber jogar para não ser pião de suas próprias incertezas e inseguranças. O mais nobre dos sentimentos é também o mais devastador. Repito : cuidado. O tempo de cada um para se reerguer da devastação é um mistério. Como se todos nós estivessemos fadados a lamber as nossas próprias feridas e ai de quem tentar ajudar. Rosnamos raivosos. Há sempre um alguém em cada olhar. Há sempre uma busca incansável e impossível em cada possibilidade que nos aparece. Há sempre um passado em cada vontade de futuro.
E quando estamos assim, transbordantes de desamor não conseguimos enxergar qualquer fragmento impreciso de uma outra e nova felicidade. Não se pode amar um coração sujo. Acredite em mim : você pode ficar também contagiado e depois, outro alguém e outro e..Quantos futuros amores perdemos no decorrer do caminho.
É preciso que alguém dê um basta nisso. Em um mundo no qual a mágoa reina a alegria é sempre um depois. E depois, e depois.
E os corações iluminados, ansiosos pelo amor buscam o momento certeiro. Depois dizem que Astrologia é a maior bobagem. E como não pensar que o encontro de duas almas não vem de uma rara combinação astrológica? Júpiter com Urano na casa cinco. Raríssima. Os deuses andam brincando comigo. Cansei de tentar faxinar corações alheios.
– Me demito!
Nem vou cair na tentação de me contaminar. A minha casa está aberta, tratei de lavar a louça e tirar o lixo.
Enxergo nesses meus olhos de menina boba somente uma vontade a mais de amor, um amor em paz.

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“Tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. ouvia canções lamentosas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos.”

eu

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Outros de nós

A insônia me consome e maltrata meus olhos já míopes. Dentro da luz do abajur revivo aqueles abraços de um passado recente. Tenho pensado em você e confesso, com freqüência. Estou com estranhos sintomas. Será que a sua presença me faz adoecer? Entre espirros e saudades. Eu só quero você. Removo e renovo esperanças. Brigo e discuto comigo. Por que você? De novo você? Sempre você? Já fico tentada a apagar do caderno esse pequeno fragmento que escrevo. Mas a lembrança do teu cheiro me tortura. Nas ruas tortas da cidade agitada te sinto perto. Nos meus sonhos eu não tenho como negar. Mero jogo de verdades nuas. Outra noite eu dizia em bom e alto tom: Você vai acreditar se eu falar que estou apaixonada? Você tinha olhos de receio e remorso. Olhos que outras vezes viram os mesmos sentimentos em mim. O passado nos marcou de uma forma irreparável. Talvez tenhamos que saber lidar com nossas cicatrizes mais profundas. Não adianta mais esconde-las. Relendo nossas palavras prolixas e difusas eu penso que há de haver amor. Ainda, sempre? Não saber discernir o eterno do jamais. Neguei, nego. Tenho medo dessa minha nebulosa paixão. Não sei quantas vezes já discutimos embriagados, loucos, insanamente apaixonados. Sem saber. Eu sinto que te invento, te crio, te jogo, te expulso, te desejo e te desprezo. Que tipo de amor é esse? Você sabe? Eu me cansei de perguntar. Entendo é dessas minhas madrugadas, de vinho e Bossa nova. Você bem que poderia estar aqui.

Nossas mágoas distorcem o que somos e o que seremos. Pensar em nós é uma dor aguda e deliciosa que me enche de prazer. Queria não me irritar tanto com seu jeito de fumar os seus cigarros. Queria não ter me irritado quando te conheci. A inspiração me invade, só queria que você também fosse o meu conforto. Calmaria.

Parece que vivemos em um fluxo contínuo de desentendimentos e carinho. Eu estou ficando louca. Agindo sem pensar eu tento arrancar a página do caderno. Fechar os olhos, cortar pela raiz essa estranha sensação de amor. Mas enfim, eu quero. Sonho com um jardim, poesia, vinho e nós. Será que um dia iremos fatalmente nos enxergarmos assim, entregues? Tenho pavor dos nossos rancores. Tenho saudade de quando você disse que me queria ao seu lado. Um dia eu te faço entender que não podia, não seria. Agora posso? Podemos? Sinto-me uma menina mimada que quer tudo agora e se não tem faz manha. Decidi que esperarei. Controlarei os impulsos, a ansiedade. A madrugada me acompanha nesse jogo sufocante. Um novo amanhecer virá e eu repito baixinho pro acaso: que eu seja sua paz, que eu seja sua paz, que eu seja sua.

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Sem você

Sinto saudade daquilo que o mundo era quando você estava aqui. Sinto saudade das cores, dos cheiros, das flores. A sua ausência é uma doença crônica. Não consigo me curar. Aprendi a lidar com a falta.
Ou não. Você me dói quando penso no sentimento sem limites que eu criei, com tanto cuidado e carinho. Você era o que existia de mais belo em mim. Quando as minhas pernas bambas denunciavam o encontro, o meu coração disparado que eu tentava disfarçar. Mas você sempre soube. Sempre sabia. No abraço eu me entregava. Nos meus olhos que urravam de paixão. Naquele olhar que eu queria dizer: Fica aqui, sempre?
Mas você não ficou. E eu tive que aprendi a olhar outras coisas. E a oferecer abraços mornos.

Como era gostoso dormir ao seu lado. Ou tentar. Perdia o sono só pra te ver e agradecer aos Deuses por você estar ali. Consumir aquele momento como se fosse o último. Até que um dia foi.
Andei timidamente até o vagão do metrô com esse meu coração que sempre sabe que o próximo passo é só saudade. Minha roupa ainda tinha seu cheiro, meu cabelo o seu perfume. Meu hálito o vinho que tomamos. Mas você não estava lá. E nunca voltou.

Sem você.

O mundo parece um retrato do que foi, ou do que seria. E eu fiquei aqui.

Esse sentimento de conformismo me endoida. Essa noção de que não deveria alimenta meus fantasmas mais infantis. O peso do seu sorriso. O amargo do teu beijo. Aquela música que você tocou não me deixa em paz.
Sem você eu busco mais motivos pra ter vontade de amar. E tenho. Só falta mesmo amar. Ando me machucando, ando machucando aqueles que tentam se aproximar. Porque eu não sei amar nada que não seja o vulto triste do seu corpo perto de mim. Invento romances passionais. Brigas homéricas. Busco emoções que não são. Será que nisso tudo eu busco você? Nunca vou conseguir abandoná-lo? Pois você já me deixou. Aqui com tudo isso que te traz de volta, mesmo que você nunca tenha voltado, afinal.

Enfim, a vontade de sorrir é maior que a tristeza desse amor. Sonho com a próxima turbulenta paixão. A minha saudade lhe abraça em pensamento. Eu sei. E penso que tudo que foi, não deixa de ser. Tudo que não está, não morre. Aguardo a transmutação desse sentimento imenso. Que ele vire poesia, desabafo, porre. Que ele encha uma sala inteira. O amor que não pude te dar irradia as tardes tristes.

Sem você.

Eu ainda sou. E ainda espero, um dia. Ser só eu, sem você dentro de mim.

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Trajeto incerto

Precisava de um pouco mais de ar. Vamos dar uma volta? Preciso de ar fresco. Estou tonta. Você me abraça se minhas pernas bambearem? Minha sinceridade me deixa cega. Tenho vontade de urrar verdades, gritar confissões, despir apelos. Não sei mais fingir. Não quero. Cansei dessa vida de palcos e atuações. Queria a certeza de que algo ainda será verdade. Mas não é. Eu tento em vão. Estou cansada.

Preciso me desprender de você e de todos esse fulanos. Uma nova aurora me espera. Ela está lá. Eu não a alcanço, porque fico sempre andando em círculos, sem saber pra onde ir. Só sei que nada me leva a um caminho retilíneo e promissor. Volto pro mesmo ponto. E me embriago. E volto, com o coração em frangalhos. 

Como abandonar os velhos caminhos? Sigo. Não posso dispersar. Sapatos novos e óculos escuros. 
Me espere na próxima lua cheia. Eu tentarei não chegar atrasada. Deixe a luz acessa, um travesseiro ao seu lado e velas chorando a minha chegada.   

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A Cozinha – Rubem Alves

Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma. Nas Minas Gerais onde nasci o lugar mais importante era a cozinha. Não era o mais chique e nem o mais arrumado. Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibelôs, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no chão. Na sala de visitas as crianças se comportavam bem, era só sorrisos e todos usavam máscaras. Na cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo, fogo, fome e alegria.

“Seria tão bom, como já foi…”, diz a Adélia. A alma mineira vive de saudade. Tenho saudade do que já foi, as velhas cozinhas de Minas, com seus fogões de lenha, cascas de laranja secas, penduradas, para acender o fogo, bule de café sobre a chapa, lenha crepitando no fogo, o cheiro bom da fumaça, rostos vermelhos. Minha alma tem saudades dessas cozinhas antigas…

Fogo de fogão de lenha é diferente de todos os demais fogos. Veja o fogo de uma vela acesa sobre uma mesa. É fogo fácil. Basta encostar um fósforo aceso no pavio da vela para que ela se acenda. Não é preciso nem arte nem ciência. Até uma criança sabe. Só precisa um cuidado: deixar fechadas as janelas para que um vento súbito não apague a chama. O fogo do fogão é outra coisa. Bachelard notou a diferença: “A vela queima só. Não precisa de auxílio.

A chama solitária tem uma personalidade onírica diferente da do fogo na lareira. O homem, diante de um fogo prolixo pode ajudar a lenha a queimar, coloca uma acha suplementar no tempo devido. O homem que sabe se aquecer mantém uma atitude de Prometeu. Daí seu orgulho de atiçador perfeito…” Fogo de lareira é igual ao fogo do fogão de lenha. Antigamente não havia lareiras em nossas casas. O que havia era o fogo do fogão de lenha que era, a um tempo, fogo de lareira e fogo de cozinhar.

As pessoas da cidade, que só conhecem a chama dos fogões a gás, ignoram a arte que está por detrás de um fogão de lenha aceso. Se os paus grossos, os paus finos e os gravetos não forem colocados de forma certa, o fogo não pega. Isso exige ciência. E depois de aceso o fogo é preciso estar atento. É preciso colocar a acha suplementar, do tamanho certo, no lugar certo. Quem acende o fogo do fogão de lenha tem de ser também um atiçador.

O fogão de lenha nos faz voltar “às residências de outrora, as residências abandonadas mas que são, em nossos devaneios, fielmente habitadas” (Bachelard). Exupèry, no tempo em que os pilotos só podiam se orientar pelos fogos dos céus e os fogos da terra, conta de sua emoção solitária no céu escuro, ao vislumbrar, no meio da escuridão da terra, pequenas luzes: em algum lugar o fogo estava aceso e pessoas se aqueciam ao seu redor.

Já se disse que o homem surgiu quando a primeira canção foi cantada. Mas eu imagino que a primeira canção foi cantada ao redor do fogo, todos juntos se aquecendo do frio e se protegendo contra as feras. Antes da canção, o fogo. Um fogo aceso é um sacramento de comunhão solitária. Solitária porque a chama que crepita no fogão desperta sonhos que são só nossos. Mas os sonhos solitários se tornam comunhão quando se aquece e come.

Nas casas de Minas a cozinha ficava no fim da casa. Ficava no fim não por ser menos importante mas para ser protegida da presença de intrusos. Cozinha era intimidade. E também para ficar mais próxima do outro lugar de sonhos, a horta-jardim. Pois os jardins ficavam atrás. Lá estavam os manacás, o jasmim do imperador, as jabuticabeiras, laranjeiras e hortaliças. Era fácil sair da cozinha para colher xuxús, quiabo, abobrinhas, salsa, cebolinha, tomatinhos vermelhos, hortelã e, nas noites frias, folhas de laranjeira para fazer chá.

Ah! Como a arquitetura seria diferente se os arquitetos conhecessem também os mistérios da alma! Se Niemeyer tivesse feito terapia, Brasília seria outra. Brasília é arquitetura de arquitetos sem alma. Se eu fosse arquiteto minhas casas seriam planejadas em torno da cozinha. Das coisas boas que encontrei nos Estados Unidos nos tempos em que lá vivi estava o jeito de fazer as casas: a sala de estar, a sala de jantar, os livros, a escrivaninha, o aparelho de som, o jardim, todos integrados num enorme espaço integrado na cozinha. Todos podiam participar do ritual de cozinhar, enquanto ouviam música e conversavam. O ato de cozinhar, assim, era parte da convivência de família e amigos, e não apenas o ato de comer. Eu acho que nosso costume de fazer cozinhas isoladas do resto da casa é uma reminiscência dos tempos em que elas eram lugar de cozinheiras negras escravas, enquanto as sinhás e sinhazinhas se dedicavam, em lugares mais limpos, a atividades próprias de dondocas como o ponto de cruz, o frivolité, o crivo, a pintura e a música. Se alguém me dissesse, arquiteto, que o seu desejo era uma cozinha funcional e prática, eu imediatamente compreenderia que nossos sonhos não combinavam, delicadamente me despediria e lhes passaria o cartão de visitas de um arquiteto sem memórias de cozinhas de Minas.

As cozinhas de fogão de lenha não resistiram ao fascínio do progresso. As donas de casa, em Minas, por medo de serem consideradas pobres, dotaram suas casas de modernas cozinhas funcionais, onde o limpíssimo e apagado fogão à gás tomou o lugar do velho fogão de lenha. As cozinhas, agora, são extensões da sala de visitas. Mas isto é só para enganar. A alma delas continua a morar nas cozinhas velhas, agora transferidas para o quintal, onde a vida é como sempre foi. Lá é tão bom, porque é como já foi.

Eu gostaria de ser muitas coisas que não tive tempo e competência para ser. A vida é curta e as artes são muitas. Gostaria de ser pianista, jardineiro, artista de ferro e vidro – talvez monge. E gostaria de ter sido um cozinheiro. Babette. Tita. Meu pai adorava cozinhar. Eu me lembro dele preparando os peixes, cuidadosamente puxando a linha que percorre o corpo dos papa-terras, curimbas, para que não ficassem com gosto de terra. E me lembro do seu rosto iluminado ao trazer para a mesa o peixe assado no forno.

Faz tempo, num espaço meu, eu gostava de reunir casais amigos uma vez por mês para cozinhar. Não os convidava para jantar. Convidava para cozinhar. A festa começava cedo, lá pelas seis da tarde. E todos se punham a trabalhar, descascando cebola, cortando tomates, preparando as carnes. Dizia Guimarães Rosa: “a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia.” Comer é a chegada. Passa rápido. Mas a travessia é longa. Era na travessia que estava o nosso maior prazer. A gente ia cozinhando, bebericando, beliscando petiscos, rindo, conversando. Ao final, lá pelas onze, a gente comia. Naqueles tempos o que já tinha sido voltava a ser. A gente era feliz.

Sinto-me feliz cozinhando. Não sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer são as sopas. Vaca atolada, sopa de fubá, sopa de abóbora com maracujá, sopa de beringela, sopa da mandioquinha com manga, sopa de coentro… Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma…A culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras. Como a Babette (A festa de Babette) e a Tita (Como água para chocolate)… (Correio Popular, Caderno C, 19/03/2000.)

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