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Archive for fevereiro \29\UTC 2012

Casa própria

Agradeço por ter nascido com um coração amplo. De grandes cômodos, arejados. Deixarei as janelas abertas, para dar claridade, sabe? Lembre-me de não fechar as portas, nem expulsar antigos locatários. Desejo, enfim…

Uma casa aberta, cheia de antigos, novos,(im)possíveis, eternos amores. Na parede da memória vou colecionar retratos, sorrisos, corpos e músicas. E são eles que me tiram da solidão dos domingos nublados. E para eles nada peço, só agradeço, sempre.

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Medos e vícios

Dentro da minha realidade muda queria optar por não esperar, não dizer, não sentir.
Toda ideia quando dita carrega a responsabilidade de se ver assim, de repente, nua, exposta. Ah, se eu tivesse sido mais prudente iria deixá-la quieta e intocável. A partir do momento que a despi fiquei também vulnerável. Não sei mais lidar. Por vergonha e medo renego o que disse. Fujo. Tenho raiva do que me inquieta pois já tenho uma inquietude própria. Minha alma caótica só sabe amar o impossível, o improvável, o sonho. E me vi assim, subitamente assassinando todas as minhas realidades. Não, não quero sair desse invólucro confortável que é o não ter, não pedir, não ser. Temo aquilo que é palpável. Entro em um estranho desespero quando me sinto realizada por algo. Tenho pressa. E por ansiedade acabo por entrar em colapso. Prefiro pensar que é tudo mero fruto de minha imaginação. Invento tudo pois assim posso me desvencilhar sem obrigação. Acho que me transformei em um ser arisco e selvagem que não sabe mais ter amarras. Sou irresponsável e impulsiva e nego a minha própria maturidade. Um jogo de forças contrárias que transcende o meu entendimento. Me amo e não me suporto. Meu vício é a ilusão. Preciso constantemente fazer e fazer e se fico parada sinto que não vivo. Sou a garotinha mimada que adora se apaixonar por possibilidades nulas. Mas também sou aquela mulher em busca de raízes. O problema é que eu tenho pressa. Sou impaciente. Antes de germinar já arranco tudo. Não sei mais o que é estar presa em algo. Vivo a ânsia de nunca me fixar. Não sou. Não me entendo. Gostaria de entender? Quem sabe?

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A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“…Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília…“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

(Correio Popular, 30/06/2002)

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Apontamentos

Eu preciso me proteger do meu próprio veneno. Eu preciso no momento exato não me embriagar de mim. Preciso achar um jeito de equilibrar a minha estranha natureza. 

Talvez controlar o turbilhão que é viver em intensidade. Entender a hora de parar e de começar a acreditar em tudo outra vez. A usar de meus destroços como os alicerces para a minha nova morada. E saber não derramar lágrimas por aquilo que se foi e que não volta. Não temer mais esse negro ser que me habita. Mas o transformar em um ser dócil. Ou não, alimentá-lo com luvas de ferro, deixado-o preso numa alta masmorra. Não. Eu preciso domá-lo e ensiná-lo a me respeitar.

Eu preciso de uma noite inteira de felicidade para voltar a acreditar nos meus sonhos mais infantis. Eu quero um carinho a beira mar, um projeto, uma realização. E me lembre de anotar que eu também desejo um grande amor. E um trabalho para enobrecer minha alma difusa.

Eu bebi tanto de mim que tomei um porre. Agora como curar a ressaca se o hálito de cachaça ainda permanece emaranhado nos meus poros? Quem sabe, um dia na floresta, na cachoeira, no mar, resolva. Agora compreendo que os monstros não ficam debaixo da cama. Eles ficam dentro de nós.

Vou reunir meus amigos e festejar o meu eu mais bonito. E mimá-los com abraços sinceros. E se possível enquanto os abraçar, me abraçar também e fazer carinhos nos meus braços. Vou cozinhar para um bocado de gente querida e ver que no gosto da comida eu estou deixando um pedacinho de mim. Esse pedacinho que é amável e amigo. Vou fazer uma festa pra acalentar a alma. Vou saciar a felicidade alheia, vou me nutrir do brilho dos olhos de quem eu mais amo.

Depois eu vou me lavar de tudo aquilo que me fez mal. Purificar mesmo. Com direito a sal grosso, alecrim e guiné.

Logo em seguida vou a uma cartomante para ela me contar aquilo que não sabe. E nem saberá. Mas vou acreditar num futuro bonito e cheio de flores. Vou dizer para meu coração que ele tenha calma e pro meu ego para que ele pare de urrar no meu ouvido. E que ele deixe de ser guloso, porque ele anda comendo demais. Se ele não ouvir, vou deixá-lo de castigo. Cansei de ser sua cúmplice em suas traquinagens.

Não esquecer de me amar em todos os momentos. E não esse amor leviano. Amar mesmo. Com compaixão. Não deixar que os sonhos agonizantes morram. Colocá-los todos agora na UTI e contratar os melhores médicos da alma para tratar deles 24 horas.

Ir resgatar minha essência de menina romântica, mesmo se o amor não vier. Mesmo se a solidão for maior que a esperança. Mesmo se. Não importa.

Ah, imprescindível fazer uma cópia disto e colocar na geladeira. Para que eu não me esqueça e não me perca tanto assim de mim.

 

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Agricultura da alma

Na vida sigo meu ritmo um pouco desastrado e quase sincrônico. Em que vou transformando tropeços em passos de dança, ressacas em reflexões elucidativas e vivências em progressos. Aonde vou? Nem eu sei se perto ou longe. Meu lugar é minha razão e minha paz é meu destino. Busco a beleza dos olhares cumplices dos encontros inesperados. Apesar de às vezes inventá-los mas do que vivê-los. Busco um peculiar hálito de vinho, vinis antigos e doses doces de Chet Baker, apesar de muitas vezes me contentar com a cachaça pura e simples que dá uma certa beleza torta do gingado eufórico dos sambas meus. Sei que algo a mais me aguarda e nem hesito em crer que é tão esplendido quanto meus sonhos mais calorosos. Acredito que a procura da luz exista uma clareira na floresta. E lá meus pés irão ganhar toda a liberdade do ser que desejo ser. E que sou honestamente nessas minhas manhãs solitárias recheadas de um pouco mais de mim. E de mim. E de mim. Eu me completo quando me vivo e mais um dia se passa eu comigo. Há quem diga que é puro egoísmo, mas não. Não há nada individualista demais no fato de gostar de si nesse mundo de almas opacas e mudas. E se eu não souber o que de melhor desejo pra mim, quem mais saberá?Opto pela plenitude em solidão afim de acalentar o coração eriçado das minhas tantas paixões da outra primavera.Em minha própria companhia deposito a fé em compartilhá-la um dia. Pois aprendi que antes tem que se entregar pra si. Quem não se compreende e não se questiona não tem firmeza na hora de se fixar. Ah, se fosse possível plantar em terra seca. Primeiro semeio, planto e colho nos jardins da existência. Ordeno os animais nos rebanhos dos sonhos.Alimento os cavalos negros e neles galopo até os mais secretos desejos de m’alma. Fecho os olhos apertando-os contra as noites e sei que dias melhores virão. E manhãs mais doces e tardes mais ensolaradas. A sorte me deve um mimo. O destino me planeja uma surpresa agradável. Eu sei. E virá.Enquanto isso, usufruo o quanto posso de promessas tolas de felicidade. E assim vou cantarolando meus silêncios, enamorando-me de meus desejos, afagando minhas palavras.

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