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Archive for março \14\UTC 2011

E se por um instante eu optasse por não optar mais. E se a minha escolha fosse simplesmente ser escolhida? Assim,  ficaria com a falsa sensação de irresponsabilidade, me sentiria mais livre e quem sabe mais precisa daquilo que obrigatoriamente eu estaria abrindo mão de ser. Deixaria dentro de mim um desejo pulsante de que agora, pela primeira vez, eu não era nada mas tinha a possibilidade e a ousadia de querer ser tudo.

Naquele momento, havia apenas uma certeza em mim : eu tinha a boca seca. Imediatamente, lembrei-me das tantas outras noites em que me deparei estando sedenta. Uísque, cerveja, vinho, água. Nada saciava. Era porque, e isso eu ainda não havia lhe explicado, eu tinha sede daquela pessoa. Aquela que há alguns dias havia tocado tão solenemente minha cintura e roçado, deixando uma pequena dor prazerosa, a sua boca tão direta e objetivamente na minha. Assim como quem busca, depois de longas conversas à beira da dúvida, satisfazer qualquer fragmento de possibilidade. Não, não se tratava de um evento inédito em minha vida.
Outras tantas vezes havia sentido uma sede como essa, talvez a vida inteira. O que lhe diferenciava era a misteriosa idéia de uma possibilidade conclusa e ao mesmo tempo inconclusa por natureza.
Sentia que aquela noite tinha seu desfecho final, no entanto, enquanto dava passos apressados na rua vazia, pensava que nada havia se concluído, pois eu estava diante de uma mera possibilidade de natureza dúbia, sem amarras e rumos. Estava lidando ali com um bicho solto, livre e eu nunca saberia qual seria a hora da sua investida final.
Terá sido aquela, resultante de beijos ao amanhecer?
E a espera, a falta de compreensão acabou por tirar-me o sono. Foi exatamente uma semana de digestão intensa. Foram alguns incensos queimados, algumas reflexões a meia luz, outras leituras de Caio Fernando Abreu e até quem sabe, um pouco de vinho tinto às quatro horas da manhã no domingo.
A minha inquietude era que eu finalmente estava vivenciando tudo aquilo que eu me propusera a viver. Havia mergulhado em um estado de repulsa as escolhas. Tive a vontade de simplesmente ser escolhida. Para que assim, pudesse me sentir mais livre e convicta de que aquilo que acontecera era mesmo o que realmente deveria acontecer. Um pouco pseudo-budista demais concordo, mas cômodo. A indiferença também é uma forma de paz.

E apesar de ter total consciência do que estava acontecendo dentro de mim, eu ainda tinha o estômago dolorido, cansado. Foi então, que lembrei-me da mãe escrita. A escrita, que para mim, sempre foi como chá de boldo. Aquele remedinho secreto para as enfermidades do coração. ” Literatura é terapia sofisticada ” disse meu pai certa vez.  Não, não tinha a pretensão de concluir nada, até porque, uma das minhas recentes epifanias é que vivemos verdadeiramente mediante o princípio da incerteza. Nem que eu redigisse mil páginas, conseguiria alcançar uma absoluta compreensão do que foi aquela noite. Buscava, talvez em vão, dar uma finalidade mais nobre aos meus tormentos púberes de menina quase-apaixonada. E enfatizo : quase. Não totalmente por imprecisão dos fatos, pelos sentimentos voláteis carregados muito e muito de nada. Provavelmente, eu ainda encheria algumas garrafas d’ água lembrando-me daquela pessoa.
Suspiro, encosto um pouco a caneta ao lado, faço tímidos desenhos no rodapé da folha, suspiro novamente.
E sorrio, agradeço.
Sinto-me verdadeiramente lisonjeada de poder conceber esse texto despretencioso. Ele é belo, puro, verdadeiro. Tem a face rosada, olhos negros e cabelos castanhos. Sorri para mim com sua arcada dentária inexistente, pede colo, chora, faz manha. Me acaricia com suas mãos pequeninas. Por um instante eu o amamento e de repente nenhum de nós sente sede.

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Dois ou três almoços, uns silêncios.

Fragmentos disso que chamamos de “minha vida’:

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

O Estado de S. Paulo, 22/4/1986

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Esperas

Estou à espera. À espera de conclusão e entedimento. Esperando o segundo preciso para mergulhar em minha verdadeira essência.Agora meus pés tocam levemente a beira do que creio ser inatingível. Tenho quem sabe a pretensão de buscar nas profundezas do desconhecido partes daquilo que sou. Preciso coletar as almas daquilo que existe em mim e dar-lhes vida, resgatá-las do abismo do inconsciente. Ensiná-las a serem autônomas, ensiná-las a fala e a escrita. Para que um dia, quando eu estiver com os pés cansados, elas me tragam um conforto e declamem os versos elucidativos daquilo que eu mais preciso ouvir.

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E se por um instante eu optasse por não optar mais. E se a minha escolha fosse simplesmente ser escolhida? Assim,  ficaria com a falsa sensação de irresponsabilidade, me sentiria mais livre e quem sabe mais precisa daquilo que obrigatoriamente eu estaria abrindo mão de ser. Deixaria dentro de mim um desejo pulsante de que agora, pela primeira vez, eu não era nada mas tinha a possibilidade e a ousadia de querer ser tudo.

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