Feeds:
Posts
Comentários

Archive for dezembro \30\UTC 2010

Metamorfose

amor
a.mor
sm (lat amore) 1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2 Grande afeição de uma a outra pessoa de sexo contrário. 3 Afeição, grande amizade, ligação espiritual. 4 Objeto dessa afeição. 5 Benevolência, carinho, simpatia. 6 Tendência ou instinto que aproxima os animais para a reprodução. 7 Desejo sexual. 8 Ambição, cobiça: Amor do ganho. 9 Culto, veneração: Amor à legalidade, ao trabalho. 10 Caridade. 11 Coisa ou pessoa bonita, preciosa, bem apresentada. 12 Filos Tendência da alma para se apegar aos objetos. Antôn: aversão, ódio. sm pl 1 Namoro. 2 O objeto amado. 3 O tempo em que se ama. 4 Relações ilícitas, comércio amoroso. 5 Mit Divindades subordinadas a Vênus e Cupido.

O sol ainda não havia ousado nascer, até ele entendia que aquela era uma noite que merecia ser escura, quanto mais escura, melhor. De longe se avistava dois corpos. Era um casal. Ele fechava o portão, ela andava com passos curtos, logo em seguida. No rosto dela, uma agonia antecipada de saudade. Só não sentia, como estava convicta de que era a última vez: o último soar do bater do portão, o último afago no cachorro, a última caminhada até o ponto de ônibus, tentando guardar em si um pouco daquele trajeto antes tão cotidiano. Seu coração pressentia uma saudade que duraria sei lá quanto tempo, perduraria madrugadas a dentro. Queria pedir a ele para ficar, pedir a ele que a amasse, queria todos aqueles pedidos que não podiam ser feitos. Parecia querer o impossível.

A cada passo ia caindo parte de si no asfalto, ia desfazendo-se aos poucos em fragmentos mortos, ainda pulsantes, sangrando. Ele levou-a até o ponto de ônibus, e enquanto esperavam ela queria abraçá-lo, dizer que o amava e que sabia que o amaria ainda mais. Gostaria somente de poder lhe explicar de forma convincente que nada daquilo era para ela substituível, ou volátil, que o amor tinha sido transcendente e que ela o amou a cada segundo daquele relacionamento. Que a quebra, a interrupção nada significava, o seu sentimento era preponderante e gritava, pedia mais, era um vício, uma vontade desenfreada de amor. Não, ele não entenderia. Ele queria apressar logo a despedida. Contava os minutos para que tudo acabasse, depois ele pensaria em alguma forma de livrar-se daquilo tudo. Tomaria alguns porres, teria noites intensas de diversão e irresponsabilidade. Era jovem, se daria esse direito.

Os olhos dela escorriam junto com suas lágrimas através da janela do ônibus, aquilo tudo lhe vinha como um presságio, mas não, não poderia adiar o inadiável. Queria berrar, urrar, queria expor a ele o quanto tudo aquilo ainda iria lhe doer. Mesmo sem saber, queria lhe falar das desventuras que viveria, do vazio e da solidão que lhe acompanhariam depois daquela madrugada. Naquela manhã quando retornou a sua casa, ela chorou, chorou deitada em sua cama, arranhando os travesseiros como uma criança contrariada e com medo do escuro.

Ficou nela um gosto amargo e permanente de abandono. Primeiro, achou que nunca mais o perdoaria, ele havia a apunhalado. Achou que deveria odiar-lhe, que assim poderia dar um fim último aos seus anseios, o peito estava asfixiado de mágoa. Aquele sentimento, o mais abundante e belo que já havia sentido estava coberto de impurezas, imundície.

Depois de dias e noites de cólera decidiu conformar-se: estava de mãos atadas. Era caso encerrado. E nada poderia ser feito. Pela primeira vez, embriagou-se de individualidade. Pensou em amar somente a si mesma, em buscar naquela nebulosa realidade uma forma a mais de se fazer feliz. A lacuna por ele deixada haveria de ser preenchida por algo. A lembrança da sua presença era uma insanidade, necessitava, enfim, exterminá-la de vez. Enterrá-la no mais profundo abismo de sua mente.

Houve uma noite em que eles trocaram olhares tímidos. Aquilo fora a gota d’ água, e naquele dia impulsivamente ficou decidido para ela que, com a impossibilidade de prosseguir, a opção válida era única: a fuga. A partir desse momento, seu coração fez-se sedento de mundo. Clamava por novos sentidos, novos ritmos, nova vida. Compreendeu que todo abandono do amor é sinônimo de renascimento. A maior coragem não era em persistir na dor e sim lhe dar uma finalidade diferente. Como se dentro dela estivesse uma carapaça velha sem utilidade e que se a deixasse lá ia acabar sufocando. O seu corpo já tinha outra forma. Precisava deixar as feições de lagarta.

Então partiu, como viajante sem rumo, em busca de novas alegrias. No início, buscou incessantemente um amor. Pensou que o remédio para um amor só poderia ser outro, da mesma forma que o envenenado precisa do veneno que o atingiu. Mentira. Mera ilusão. Sua alma tinha outra exigência. Estava ávida de si. O mar que desbravaria era sua própria essência. Um desconhecido oceano assustadoramente familiar. No trajeto, conheceu alguns outros navegantes que lhe proporcionaram ensinamentos de veracidade ímpar. Imersos em profundidade e absolutamente elucidativos. Em cada convivência ia desvendando algo novo, novas culturas, rituais, canções e filosofias. Viveu um pouco com cada um desses apaixonantes seres do mar. Como eles tinham chegado àquelas águas tão inatingíveis? Apenas um palpite: semelhança de necessidades energéticas. Sabia que eram relações mútuas, nas quais ensinamento e aprendizagem estão presentes em ambos os lados. Porém, não sabia o que oferecia a eles, talvez nem eles soubessem. A consciência disso tudo vem com os alicerces da amizade.

No entanto, ela gostava de ser um pouco autodidata. Há coisas que para serem atingidas exigem total isolamento. E foram muitas e muitas alvoradas em que se aplicou inteiramente a árdua missão de revelar a si mesma. Assim, ia sendo preenchida por aquelas delícias tão esporádicas e ao mesmo tempo tão primeiras, que às vezes, se esquecia de que elas também eram frágeis e volúveis. De nada importava, estava plena, completa por aquelas pequenas bobagens, aquelas notas, todos aqueles instrumentos, as palavras e as energias trocadas, os sorrisos diagonais. Dentro de si pulsava um desejo imenso e uma sede incomparável de continuar conhecendo e vivendo tudo aquilo que fosse possível. Estava saciada de si, queria o mundo e o mundo também a queria. Logo fora percebendo que na somatória de tudo isso se deparava com a maturidade, já não mais se reconhecia como a menina lagarta embora não se atrevesse a nomear-se borboleta. Não sabia o que era de fato, mas com certeza descobriria em breve. O caminho para a compreensão já havia sido traçado, bastava seguir as pistas por ela mesma deixadas.

Notou que nenhum vazio se completa sozinho. Que amor nenhum no mundo lhe deixaria tão farta. Olhou a solidão e viu nela uma menina doce, calma e serena. Quase um reflexo de si mesma.

Na noite de hoje, ela está com o barco atracado em um porto misterioso. Estranhamente foi tomada por uma nostalgia tamanha, pegou um pequeno bloco de papel e através da escrita resolveu trazer a luz aquilo tudo que havia sepultado anteriormente. A ele, gostaria de dizer: obrigada. Gostaria de lhe agradecer por tê-la deixado. Por tê-la dado o desejo de domar suas próprias inquietudes. Talvez gostaria de dizer que o ama, ainda mais por tudo isso. Aquela junção de almas fora mais benéfica do que eles poderiam imaginar. Ela ficaria só nos cais, dotada de uma felicidade inovadora, enxergando dentro de si um ser pulsante, investigador de suas próprias verdades. Mas que pensaria nele enquanto o sol contemplasse o mar brando nas futuras tardes quentes de verão. Pensaria, nada mais. Porque o amor não era mais insaciável, o amor não era presença. O amor dela lhe levava a sua própria combustão de sentimentos indecifráveis. Indispensável para sua evolução, transcendente a tudo. Sereno. Em paz.

Anúncios

Read Full Post »

Um coração saliente

Agora não sabia se caminhava em direção a um precipício ou se finalmente havia encontrado a tão esperada auto compreensão. Os passos receosos embora muito rápidos faziam com que fosse tropeçando naquele medo todo. Os pés tinham alguns calos, alguns machucados que doíam na textura das pedras, na areia quente do caminho, todas aquelas formas irregulares. Doíam deliciosamente, como aquelas dores que carregam mais prazer do que dor.

A cabeça a mil, a sensação de estar entrando em algum tipo de transe, algum êxtase de vida que não pode ser decifrado. Caminhava, corria. Tinha medo do caminho e voltava assustada. Não, o medo maior era o retrocesso. E se estava seguindo para o local errado? Sem bússola, sem mapa. Quem lhe direcionava era um amor. Um amor barato, ilícito e inconcluso. Marginalizado dos outros amores da terra.

Queria ao menos uma solução precisa. Uma fórmula exata. É isso e acabou. E não estar cheia de ressalvas e controvérsias. É isso porque é aquilo e tem aquilo outro emaranhado no meio. O mundo dos sentimentos sufoca. Vivia se afogando em si mesma, estava desprovida de mata ciliar. Tudo alagando, alagando. Não há lágrima que compensasse o desastre. Optava por fim pela literatura. Talvez se escrevesse conseguiria entender tudo aquilo. Ou não. Só queria dizer : eu sinto isso. O que você vai fazer com meu sentimento? E eu lá sei! Já não é uma preocupação minha. Pronto. Isso estava parecendo uma medida drástica : se quer saber, eu sinto isso sim, agora lida com isso, apreende o que você achar melhor. Senão ignora, ou seja sincero e diga : não há nada o que fazer. Entenderia, pois também se sentia de mãos atadas, presas, enfaixadas por tanta burocracia. A vida é extremamente burocrática, talvez, seja por isso que queira dar um fim último as suas emoções. Bobagem. Elas vivem independente daquilo que planeja para elas. Vivem de revolução, arrepiam, doem, evaporam, lutam.

E se não tivesse o controle disso tudo? E tem que ter?

Respira três vezes, com calma. Dá uns passos tímidos, agacha , procurando o mundo de outra perspectiva. Recolhe tudo que está espalhado, tenta organizar aquilo dentro do peito, classifica, separa. Depois solta como bicho selvagem, não se pode fugir da sua natureza primeira.

A minha é sentir.

Read Full Post »

Fôlego

Corroída, doída. Quase sem ar, sem pesar. Apesar disso, apesar daquilo e de tudo mais. Com ciúme insensato, nato, infantil. Se dobrando, quebrando, apertando o coração, com mãos vadias, lesas, loucas. Ventania errante, inconstante.
Embriaguez. Embriagada, injuriada, mal criada, desgosto. Desejo, maciço, permanente, solto, bicho, insanidade. Mato. Amando, de amor barato, casto, infeliz. E no choro, no olho, espelho, retoque. De beleza, menina, querida, doce.
E prazer, vontade, corpo. Amada, deixada, carinho. Inspiração, medo, volta, palavras. Potência, semente, sente, sente, sente..
Eu.

Read Full Post »

Pequenas e doces epifanias

Hoje eu cheguei a uma conclusão inusitava: às vezes, eu sinto que conheço uma ínfima parte de mim mesma. Parto então para esse constante descobrimento do que sou, do que quero e posso. E eu me espanto, pois sou TANTA coisa. E coisa que nem sei nomear, talvez não seja coisa alguma.. muitas vezes é música, outras poesia, pensamento, quereres e sonhos. Então, quer dizer, grande parte do tempo eu sou apenas parte de mim.. E naquele curto espaço eu sou desbravadora de minhas próprias verdades.
esses devaneios me remetem a Álvaro de Campos.. meu heterônimo favorito..
” Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!”
É sábado de manhã.

Read Full Post »