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Archive for julho \26\UTC 2010

Auto-análise

Se porventura, petrificasse um pouco o tolo coração de tantos anos. Talvez assim a dor não inundasse tanto as artérias e veias. Como objeto imóvel, não se deixasse florir por tantas ilusões. E se não houvesse a ânsia de amar na sua totalidade, seria, por fim, mais calma e mais serena como nunca antes havia sido. Quem sabe, o que falta é um coração mais firme e mais conciso, mais frio do que doce, mais esquivo que amável, mais meramente inalcansável.
Se pudesse em um dia dissolver todas as mágoas em lágrimas frias. E caso elas fossem insuficientes, se jogaria chuveiro abaixo, deixando as gotas escorrerem pelos seus olhos inchados e coloridos pela tristeza. Seria naquele momento : em que não se sabe mais o que é gota, e o que é lágrima, que ela se enlaçaria em uma toalha quente, debruçaria na janela deixando os raios do sol queimarem um pouco, esfregaria os olhos, conteria essa explosão líquida que esvaziava dentro de si e tentaria com muito esforço ainda enxergar, naquele dia ensolarado, um motivo a mais para lhe fazer sorrir.
E apesar de tudo, se nada disso fosse eficaz, procuraria na cama desarrumada um conforto, tentaria, ao abraçar mil travesseiros, curar sua tão absurda carência de ser amada. Apagaria de si, ao beijar os cílios, as palavras duras que rondavam sua mente inquieta. Deixaria de pensar que não era capaz de arcar com suas decisões hoje vistas tão erradas. Gostaria de finalmente apaixonar-se pela vida e não mais questionar a validez de sua existência. Deixaria de lado o súbito desejo de sumir no mundo para então aprender a amá-lo dentro de suas formas mais imprecisas. Não pensaria mais naquilo tudo que perdeu e que somente hoje tinha vontade imensurável de agarrar, como criança assustada no escuro. Sim, acenderia as luzes, levantaria e talvez até desse risadas tímidas de seus pés tortos. Buscaria uma solução que não fosse a fuga imediata da realidade que criou para si, não desejaria voltar a infância, não planejaria uma viagem pelo mundo, não gostaria simplesmente de deixar-se caminhar até a maçaneta e não aparecer mais. Descartaria seu desaparecimento. Não mais se perguntaria : quantas madrugadas aguentaria longe de si mesma.
Buscaria com toda sua força aquela felicidade que brota de si mesmo. Gostaria de uma felicidade egoísta, vinda de sua própria vontade. Não mais depositaria nos outros a cura para estabilidade de sua vida. Seria feliz, a qualquer preço, dentro de sua solidão. Deixaria de ser a menina boba que vive de idealizações, encararia que já havia esperado demais por tudo isso. Deixaria de amar assim, tão absolutamente, desataria os nós que a prendiam aos mais distintos sentimentos. E já, com a alma nua, voltaria a debruçar-se na janela e dessa vez não precisaria nem pensar em sorrir, pois já estaria sorrindo há muito tempo.

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