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Archive for abril \07\UTC 2010

H. acaricia lentamente as costas de R., em um movimento circular quase sincrônico. Pensa naquele momento como sendo o cúmulo da felicidade, uma felicidade que em nenhum momento anterior ousou pensar existir. A completude encharcava-lhe a alma, nutria todos os tecidos e orgãos. Fartura.
Os olhos de R. era o que mais lhe encantava. As vezes tão poucamente visíveis e ainda sim tão relevantes. E como era prazeiroso cada olhar trocado. Muitas vezes sentia-se corar lentamente. Aqueles olhos pincelavam seu rosto.Havia muito tempo que não se entregara a tamanha admiração, intensa e sem preconceitos. Admiração tão ampla que ia desde o físico ao espiritual. Era para R. que H. queria dedicar todos seus versos. Absolutamente, todos. Nessa imensidão flutuava serena, todos os dias quando acordava. E era no despertar do dia, logo no primeiro instante sonolento que se lembrava dele. Nenhum instante havia jamais se atrasado. A lembrança pesava nos olhos de H. que tão solenemente pousava os cílios e buscava esse quase-sonho. Ah, mal saberia agora dizer se R. era real.
R. recosta-se nela e lhe faz uma carícia.
Seus carinhos são a dádiva mais bela. E independente da frequência, ama. Ama loucamente. Para ser sincera consigo mesma, H., nunca imaginara que iria prender-se a tão pequenas atitudes e conseguir amá-las com tanto fervor. Isso acontecia também com as ruas e os cheiros. Tomavam proporções tão irreais. Via-se muitas vezes reparar no não antes nunca visto. E que através da presença de R. ocupavam um espaço tão grande em sua percepção. O mundo nunca fora tão belo.
Muitas vezes, durante a noite, H. questionava-se.Por que havia concebido com tanta perfeição tamanho sentimento? Pensou muitas vezes na hipótese de estar grávida de tal emoção. Talvez isso explicasse porque antes devorava tantas relações, com tanta gula. Precisava nutrir aquele pequeno ser, que só despertara quando, pela primeira vez, deparou-se com R. Não, não sabia nada a respeito de seu nascimento. Pois aquilo ainda era tão semeado dentro dela. Seria como o quase nascimento. Ainda crescerá, infinitamente. Só que de olhos abertos, e assim, poderá dessa forma, alimentá-lo dentro e fora daquele suposto cordão umbilical. Dedicaria-se a ele de duas formas distintas. Amaria, portanto, todas as fases.
R. interrompe sua digressão, balbucia algumas palavras vindas do mundo dos sonhos. Mal imagina ele tudo que se passa na mente inquieta de H. Ah, dava muito trabalho amor assim. Os sintomas eram perceptíveis. H., sempre fora uma menina romântica, o seu desejo imutável : o amor sublime. Deliciou-se em todas as histórias de amor que lia. H., acima de tudo, sonhadora. Uma sonhadora nata. No entanto, R. conseguia potencializá-la em todos os sentidos. As lágrimas já frequentes tornaram-se ainda mais comuns. Ela tinha subitamente vontade de debulhar-se em lágrimas, madrugadas a dentro. E não, não era tristeza. Chorava porque seu amor era grande demais para acomodar-se dentro dela. Aproveitava qualquer situação para aliviar um pouco aquele coração tão repleto. Apesar, de sempre imaginar que seu coração era relativamente grande. Estava enganada.
H. também, via-se como prisioneira das palavras. Era impossível não imaginá-la a redigí-lo. R., no entanto, tinha os tornozelos livres. E isso deixava-a ainda mais pensativa. Queria loucamente, e talvez em vão, traduzí-lo em palavras. Impossível. E o que ela faria, além de poesia, com sua inquietude permanente? Sua alma exigia isso. Inevitavelmente estava tecida ao papel e caneta. Fibras firmemente costuradas.
Nesse momento H. tem uma pequena quase epifania. Acorda R. e atrela ao susto do despertar um “Eu te amo”.
Se ele ouviu, ou entendeu, jamais importará. A junção era válida. Sentimento e palavra, vivos, palpáveis, por um instante.

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