Feeds:
Posts
Comentários

Archive for março \29\UTC 2010

Os grãos secos

Ela pega o copo cheio, lambuza-se. A água escorre límpida e agressivamente pelo seu pescoço. Bebe em um gole só. Mata a sede e tenta aforgar-se nela. Os cílios molhados denunciam-na ríspidamente. A maquiagem não está no seu devido lugar. Com os olhos molhados e manchados do próprio desespero ela grita. Um grito de uma força tamanha. Porém, nem ela saberá dizer se emitiu algum som. Sabe que sua vontade era gritar. Sua vontade era esfolar seu próprio corpo na porta de madeira, aquela que fica a frente do corredor. Estava louca. Faltava-lhe ar. Um pouco de tontura. Os olhos tão sofridos já não enxergavam direito, as cores haviam se potencializado. Um contorno diferente para a realidade fria. Vermelho e amarelo. Cores intensas demais para aquele momento. Escuridão. Ela se debruça na cama desarrumada. Agarra-se no lençol de linho branco que tem bordado algumas flores lilás. “ é um belo lençol..” – pensa. Em desesperados segundos lembra-se das noites de vinho tinto e queijo brie. Que dor que dilacera. Não, o perfume daquelas noites não poderia ter dissipado-se tão rapidamente. Ainda tonta, puxa de baixo da cama a coleção de lembranças que nem haviam sido vividas. Inexistentes. Eram apenas grãos que secaram na plantação. Sem sabor,nem frutos. Abraça suas pernas e reencosta a cabeça entre elas. Tenta chorar baixinho. Chorar sem desespero, sem vontade de destruir coisa alguma ( sendo ela, verdadeira ou não.) O imaginário nunca havia sido tão cruel. Arrasta-se no tapete, balbucia algumas pragas. Ai, que ódio. Tem raiva de tudo, absolutamente tudo. Tem raiva até de sentir raiva daquilo tudo. Pensa nas tantas mágoas que tentou submergir e até caramelizar dentro das tortas de damasco. O doce já não consolava mais. Nem se fosse o seu preferido. Lembrava-se de quando o levou para prová-lo pela primeira vez. O estômago doía. Não queria mais nada. Queria apenas ficar lá, sentada na própria carência, acariciando suas pernas. Queria um pouco de conforto naquela noite. “ Não devia ter acreditado tanto.. burra, burra, burra”. Ah, e quantas vezes avisaram-lhe para não ceder tanto, para não se deixar envolver daquela maneira. Mas nada mais importava. Sentia que vivia, pela primeira vez, um grande amor. Um grande amor que sangrava, agonizava dentro dela. Um amor urrando de sofrimento por não ter sido o amor que planejara para aquele homem. “Mas que grande babaquice! Esse papo de amor..” Abraça com mais força as pernas já trêmulas e por alguns minutos sente pena de si mesma. Pena por ter tanto esperado e ela sabia, não se deve esperar. O planejamento torna as coisas mais complexas. Mas também não suportava aquelas vidas “carpe diem”. Era mesmo intensa, absoluta. Precisava disso para sentir-se viva. Queria todos os pedaços, não migalhas. Engolia tudo com gula. Até passar mal. E não eram só as tortas de damasco. Ah, havia sufocado dentro de si mesma a vontade de ser feliz. Era tanta, tanta. Depositou nele algumas de suas mais ridículas fantasias. Descartou o pessimismo. Viveu. Amou loucamente cada dia, mesmo aqueles nos quais se desentediam, pois amava apenas o fato de poder desentender-se com ele. Ela só queria um espaço, um lugar em sua vida. Que fora tão repentinamente destruído. Tão cruelmente arrancado da pele, desfragmentando tantas células, espalhando tantos átomos pelo caminho. Restava apenas a dúvida da verdade, a palavra de inconformismo não antes dita, o questionamento, a revolta com a felicidade, as injúrias e acima de tudo aquilo, a solidão.

Read Full Post »