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Archive for janeiro \25\UTC 2010

Os sentimentos

Desejo os sentimentos imutáveis. Ah, e o quanto gostaria que assim fossem. Ficariam sempre marcados pelo calafrio apaixonado. As mãos suadas de ansiedade. A boca trêmula de interrogações. Ah, desejaria que sempre assim fosse. E depois, seriam os sentimentos imutáveis o reflexo da eternidade. E foi quando mais os desejei , durante todo meu caminhar nebuloso nos caminhos de Afrodite, senti que encontrara uma causa para essas tão loucas probabilidades. Ah, e se for só ilusão? Nada tenho que podar, gosto das ervas daninhas do jardim. Não entendo esse preconceito barato em relação as ilusões. As pessoas causualmente gostam de maquiá-las, exterminá-las pela raiz, arrancá-las com ódio. E para que? Se são a seiva de todo coração apaixonado. Eu não. Eu delicio-me no colo instável, no remexer das pernas inquietas. E foi quando resolvi assumí-la que conheci o meu então citado personagem. Ele tem um ” quê” de ficção, misturado com um viés de realidade. Ah, e quanto gosto de sua mistura. E como tenho, nesses últimos tempos, deitado apaixonadamente com o acaso. As agradáveis noites mal dormidas..
Aliás, as manhãs são inundadas de felicidade. Uma felicidade que brota dos olhos semi-abertos e que deságua no abraço apertado de bom dia. E como é bom, como é mágico tê-lo naquelas poucas e doces manhãs de janeiro. O nosso inesperado encontro não deve ser esquecido. Pois primeiro o concebi literariamente, sem um dia pensar que poderia ser senhora do seu coração receoso. Segundo os astros, somos como perfeita magnitude. Na prática, somos apenas humanos. Humanos com suas fraquezas e medos, cheios de inseguranças, mas que as vezes se dão ao luxo de sentir a alegria escorregadia das paixões. Nunca estimei o par perfeito.. Gosto das impurezas. Gosto da nossa má formação ocular. Pois só assim pude encontrar alguém que entendeu, uma única vez em minha vida, como era meu mundo nublado. Quase como um Monet, de pinceladas incertas.
Foi através dessa visita, das mirabolantes forças do destino, que consegui reconhecer-me como realmente sou: Um ser carente, que não pode fugir do seu próprio romantismo clichê. Ah, e como relatar o quanto gosto do jeito que ele enlaça-se em mim e embaraça meus sentidos. Da sua meiga grosseria. Da sua boca que suporta mil sorrisos. Mil sorrisos por mim oferecidos, às vezes, sorrisos calados, que são lindamente por mim suspirados. Com ele, colecionei alguns silêncios. Os mais intensos que já tive. Silêncios de força imensurável, silêncios guerreiros. Quase heróicos.
E foi para ele que ousei dedicar palavras tão solúveis. Tão hesitantes como nós mesmos. Foi para o autor das minhas mais juvenis madrugadas. Para o responsável pela minha vivacidade infantil.
Para o menino de óculos maiores que os olhos.. com todo meu amor crescente de promessas encobertas. Juntamente com o insensato desejo de imutabilidade.

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Fragmentada senhora

Sempre rejeitei essa vã idéia de totalidade. O que nunca imaginei é que esse sentimento é e sempre foi recíproco. A totalidade sempre fugiu de mim. Sempre escorregou arísca pelas minhas mãos. E apesar de por toda minha vida ter vivenciado com tanto fervor a sua ausência ainda sinto saudade. Uma falsa saudade que rouba de saudades vividas a fórmula de sentir-se saudade. De nada sabe de mim e muito menos eu sou conhecedora de seus caprichos.
E por que então sinto tanto sua falta? Na imensidão de cada amanhecer de olhos cerrados questiono-me. Penso em porque almejo tanto essa abrangente desconhecida. Penso que sempre relacionei-me melhor com meus fragmentos. Esses sim caminham comigo desde que tive consciência de parte ou de todo. Ou até mesmo antes de ter consciência, essa não é uma das minhas maiores qualidades. A consciência também é um pouco hostil.
Os fragmentos traduzem parte daquilo que sou. A minha alma já admitiu-se fragmentada. Após muito relutar, ela um dia susurrou aliviada ” Não entendo essa coisa de totalidade”. Outrora, chegou a conclusão de que era confusa, intensa demais para se auto-compreender.. Fazemos essa pequena terapia todas as noites, e vem rendendo bons frutos. Assim espero.
E se é de alma, então nunca pude desapegar-me dos meus queridos fragmentos. Migalhas minúsculas, quase imperceptíveis dentro de mim. Dançam, coloridos, cintilantes. Não estão acorrentados uns aos outros, tem os tornozelos livres, claros. As vezes eles vem, voltam, surgem outros.. São seres muito mutáveis. Acho que assim são para não entrarem em desarmonia com a minha essência tão peculiar.
E não tenho muitas queixas a fazer em relação isso. Só devo confessar que sinto saudade do compacto, do acorrentado, do fixo, imóvel. Ah, os fragmentos são crianças na puberdade. Cheios de energia. Acontece que às vezes sou também anciã. Velha senhora me domina. Gosta de oscilar na cadeira de balanço, trançar os cabelos. Gosta também de sentar na varanda e apreciar a lua, gosta do sereno no rosto cansado. Gosta das noites de inverno, lembro-me daquela mais longa noite de junho. Nesse dia sua visita já é uma tradição em mim.
E quando estou com ela que penso o quanto estava enganada quanto viver em harmonia. Nesse momento desejo a totalidade dos seres imutáveis. Nesse momento sinto uma sabedoria que vem de muitos séculos atrás. Uma sabedoria que não pode desfazer-se em voláteis segundos. É necessário escrevê-la em pergaminho. As crianças correm pelo quintal, a senhora irrita-se, babulcia injúrias. ” Gostaria de uma companhia mais calma”- pensa.
É, necessitamos.. Tento buscar novamente a totalidade, iludindo-me que desta vez conseguiremos nos entender. Tento captura-la. Roço a ponta dos meus dedos em seu corpo, já sentindo o gosto de tranquilidade. E como um coelho ela corre pela escuridão. Corre tão rápido que ultrapassa as dimensões visíveis.
Olho decepcionada para a velha senhora, ela de olhos baixos me diz.. ” Eu já sou a desarmonia, o conflito e o descompasso, conforme-se menina.. ”

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