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Archive for outubro \14\UTC 2009

Ser e estar

banco

Estou em território desconhecido. Esfrego os olhos na tentativa de compreender melhor o cenário em que me encontro. Por um momento culpo a miopia, aquela que sempre distorceu tudo ao meu redor. Mas continuo sem conhecer tal ambiente, não há nada em minhas lembranças que me recorde de já ter estado aqui. Busco qualquer sensação conhecida. Porém, não há qualquer sensação disponível, simplesmente porque não é permitido sentir. Aqui não há terra, mar, vida ou morte. È o vazio materializado, mas não palpável.
Busco incansavelmente qualquer porta de saída, alguma maneira de voltar ao conhecido. O vazio em que me encontro não só assusta, mas também me desespera. Não tenho para onde correr e nem sei se ao menos isso é possível. Estou limitada ao nada e por tudo. Tenho dificuldade de lidar com o vácuo, pois nunca havia estado nele e pelo que sei isso é humanamente impossível.
Mesmo sendo vazio, esse para mim é um vazio incompleto. Falta a vã idéia coesa de totalidade. É um sentir medíocre, uma possibilidade crua, um desespero tolerável. É um ambiente inóspito. Nem melancolia lá existe. A melancolia é egoísta, pelo menos comigo ela sempre foi. Gosta de me tomar por inteira e não larga os dentes de meu corpo facilmente. Ela vive do meu sangue e é inevitável que assim seja. Ela é como um vírus, que só existe quando atado a sua fonte de vida.
O nada sou eu. Eu sou o nada. Nossa imperfeição é nossa semelhança. E nesse mundo de metades uma simples semelhança já nos torna iguais por completo. Somos pedaços dotados exclusivamente da falta. E talvez seja por isso que estou aqui, para juntar-me a algo tão incompleto quanto eu. E se não sou um ser real como exigir que tudo também seja? Alguém deve ter me colocado aqui por motivo qualquer, de por ventura juntar um quebra-cabeça, ainda que com peças que não se encaixam. Simplesmente pela vontade de juntar-me a algo. A algo a que sou incompatível, mas que pela falta de algo melhor é temporariamente compatível. Ou será que eu mesma me destinei à incompreensão por não agüentar mais não encontrar a saída pela qual tanto esperei?
Entreguei-me ao nada quando desisti da conformidade do todo? Ao colocar-me no vazio, a aceitação da desistência seria mais fácil do que se eu estivesse no mundo real. De fato nós temos a mesma concepção das coisas juntamente com a eterna pretensão de ser algo.
Outrora senti alguma coisa parecida com isso. Enquanto caminhava no escuro das minhas olheiras. Olheiras de quem dorme em demasia para fugir da ausência. Da ausência de tudo e de si mesmo.

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No espelho

espelho

Faz muito tempo que adormeci.
Pensei que havia sido apenas um cochilo, uma coisa à toa, talvez, mas nos meus olhos estava estampado o passar de uma eternidade, ou duas, quem sabe. Olhei ao redor e vi algumas roupas espalhadas pelo chão, uma taça quebrada, um envelope vazio. A cama desarrumada com o colchão a mostra, os travesseiros no chão. Quanto tempo fazia desde a última vez? Eu estava desnorteada, confusa, insegura. A vida tão ausente, apenas fatos retratavam o que passou. A realidade me esbofeteava e me olhava com reprovação. Das minhas mãos trêmulas iam caindo os pedaços de esperança no chão, que formavam mil pequenas migalhas. A vã compreensão de mim mesma perdeu-se junto ao tempo, estava com o corpo e a alma de um ser estranho. Não me reconhecia mais, não me encontrava. A falsa lógica dos acontecimentos me enlouquecia e angustiava, o que veio antes e qual foi à conseqüência? A memória falha procura refúgio nas lembranças de tempos felizes. A vida quebradiça, agonizante, branca da morte e fria pelo desamor. Revirei gavetas, procurei fotos, cartas. Na busca incessante por quem eu era, por meus princípios. Tudo em branco. Minha vida fora apagada do meu próprio consentimento, fiz um pacto com a solidão e abracei com unhas e dentes o esquecimento. E não me lembrava o porquê de tudo se teria sido algo que provoquei ou se fui colocada numa cilada, uma maldade qualquer.
A porta bate e nesse mesmo momento a esperança do chão se junta e apesar de colada com desesperança, acredito que ainda assim tem o seu valor. No vão do corredor avistei sapados pretos, muito desgastados, reluzidos pela luz do rodapé. Quem poderia ainda lembra-se de mim se até a solidão já se esquecera de me fazer companhia? A chave girou e a porta, receosa, abriu-se rangendo. Troquei olhares com o visitante. Fui invadida por uma sensação nunca antes vista, nunca antes imaginada. Era eu mesma na porta do lado de fora de casa e era eu também do outro lado. Um encontro inusitado comigo mesma, um encontro que esperava, mas em linguagem não literal. Por devaneio ou sonho já não sei a veracidade de tudo isso, e já não importa mais. A visita pediu permissão para entrar, sentou-se na poltrona velha, reclinou-se para baixo e começou:
– Sabe, você desperta o que há de pior em mim.. Preciso me livrar de você.
Desnorteada com o comentário do “outro eu” permaneci em choque. E ela continuou:
– Você já me fez mal demais, já destruiu tudo que poderia. Deixou-me sozinha no escuro.. Olha só para você, é isso o que você quer? Se deixar levar por um esquecimento preguiçoso, um esquecimento que não se importa mais com você.. E sabe, conseqüentemente isso tudo que você tem feito diz respeito também a mim.
– E eu – acrescentou – Eu quero ser feliz.
Em um movimento súbito, a estranha personagem debruçou-se nos joelhos e chorou. Um choro de criança, mas sem inocência. Um choro de quem não tem motivos para parar de chorar. Levantou-se e abraçou-me com as lágrimas correndo pelo meu ombro.
– O pior de tudo isso que eu ainda acredito em você, acredito que ainda podemos ser uma só. Você se sente sozinha e eu também, está faltando algo, mas não posso mais aceitar isso que você tem feito.
A culpa apunhalou-me e corroeu os ossos. Doía, doía e matava aos poucos. A falta de conexão lógica do porquê do estranho desabafo também me perturbava. Sabia que estava errada, sem saber exatamente o que teria feito na segregação daquela minha alma confusa. Sentei no chão remendado, no frio buraco do assoalho. Coloquei as mãos no rosto e depois como quem tenta puxar uma máscara devidamente colada arranhei-me na tentativa vã de tirar de mim aquele monstro que estaria destruindo uma vida e impedindo, como maior obstáculo, a felicidade. O que me entontecia mais é que sabia que um dia eu também sonhara com o sonho de felicidade eterna, que tinha boa conduta e lutava pelos meus princípios ainda irreais, cor-de-rosa. O que havia acontecido comigo? Os pensamentos desconexos me levaram a um turbilhão de sensações horríveis. Doía na alma, no corpo e me envergonhava. A outra parte de mim continuou:
– Pare de se maltratar e trate de mudar de vez essa sua vida. Pare de se prender ao passado, não vê que ele está lhe impregnando de tristeza? Largue disso.. Saiba que o futuro é somente feito do agora. E eu sei que nunca é tarde para a transformação necessária.. Eu poderia muito bem ter me livrado logo de você, mas a condição para isso é livrar-me também de mim. Você é algo intrínseco a mim.. Então, por favor, eu lhe imploro..
Naquele momento descobri que havia uma bipolaridade espiritual naquele cômodo. A alma boa tentava salvar o fragmento que restou da alma destrutiva. A primeira era amor enquanto a segunda, ódio. E que ódio senti quando soube que eu era a parte que se deteriorara com o tempo. Olhei para o teto da sala escura, pensei em alguma solução imediata e vi que estava me deparando com duas alternativas possíveis: desistir ou lutar, dar a sentença da morte ou viver. E por mais turva que estivesse minha mente a decisão era fácil de ser tomada. Enlacei-me nos braços dela e chorei baixinho. Fiz promessas de felicidade. Ela beijou-me na testa e sussurrou:
– É, minha pequena, acho que você finalmente se encontrou.

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Desassossegados

A Raça dos Desassossegados

À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.

Martha Medeiros

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