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Archive for junho \18\UTC 2009

Atraso da Inspiração

Enquanto ela não vem…

EMBRIAGUEM-SE
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

 

Charles Baudelaire

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Maria não era flor

Maria não era flor. Nem ousava ser, não tinha pétala e nem botão. Maria não tinha cor, não tinha cheiro. Só verde e do verde bem sem graça. O verde que só é verde porque não pode ser outra cor, mas se pudesse ser de cor nenhuma, seria. Maria tinha se acostumado com seu destino. No começo se incomodava em ficar entre a terra batida e as pegadas, mas com o tempo descobriu uma maneira de se sentir confortável. Maria estava lá, estática. Ela deixava-se levar pelo vento quando estava de pé. Quando deitada, servia de apoio para insetos. Não os temia, eles não gastariam seu tempo com ela. Gostava de observar o cair da tarde, gostava do calor do sol e do olhar da lua. Gostava de coisas simples, e para quê ser mais complexo? Maria era Maria porquê quis, senão seria graminha ou matinho. Mas não gostava do diminutivo, era pejorativo. Maria era Maria. Pelo menos o nome tinha alguma graça. Não invejava as flores do jardim. “Ter beleza, cansa” concluiu. Mas bem que ela gostaria de ter, mas só para ver como é. Maria não era imponente e nem dava frutos. Vivia bem em sua mediocridade.
Chico era um girassol. Chico era Chico porque quiseram e gostava de ser assim. Chico tinha beleza até demais. Apaixonava e seduzia, ele sabia que era bom nisso. Tomava banho de sol e água fresca, tinha todas as mordomias. Todos conheciam Chico, era o girassol mais bonito de todo o jardim. Todas as flores suspiravam por ele. Maria não. Maria não o conhecia, nunca havia olhado para ele. Imagine só, olhar o girassol. Que idéia mais sem sentido. Chico e Maria não se conheciam. Até agora.
Chico, nostálgico em uma tarde pensava na vida. Maria não pensava em nada. Ele debruçou-se no horizonte e suspirou, ela apenas suspirou. Chico estava cansado de ser girassol. “ Eu bem que poderia ser um matinho qualquer”pensou. Olhou para baixo e viu Maria encostada em um galho. “Quem é esse matinho?” Questionou-se. Depois se estranhou, porque gostaria de saber? É apenas um matinho..verde, amassado e sem graça. Para quem é amarelo tudo é mais fácil. A vida era fácil demais, os insetos pequenos demais e as abelhas nem faziam mais cócegas. Observando Maria ele invejou sua paz, ah, invejara a brisa ,o toque macio nas não-folhas de Maria, nos seus ramos mastigados pelas formigas menos exigentes. Chico nunca havia desejado não ser Chico e muito menos pensou que em algum aspecto gostaria de ser mato, matinho, lixo.
Esses estranhos pensamentos o deixavam neurótico. Era seu ego lhe dizendo “ o que é isso rapaz, você? Matinho” e sua mente confrontando “ Ué, por que não?”. “Ah, que bobagem”- pensou. “Devo ter tomado muito banho de sol pela manhã”. Virou-se para cima, admirando o céu azul. Mas não resistiu olhou de rabo de olho para Maria. Reparou em sua mediocridade e não sabe como achou bela. Achou essa idéia de humildade até que interessante, talvez por nunca ter tido vontade de ser humilde, ou melhor, nunca imaginou ser. Ser Chico estava acima de ser qualquer outra coisa. Era Chico, o girassol.
Ele se flagrou algumas vezes descendo de seu pedestal e a observando. Quando percebia, condenava-se. Mas depois de algum tempo deixou de se punir e passou a arranjar milhares de justificativas do tipo, aqui o vento bate mais leve, não desarruma as pétalas impecáveis.
E justificando-se, ele foi descobrindo-a e a cada dia a achava mais bela. Ah, as outras flores não sabiam nada da vida. Ela sim era merecedora de elogios. Estava viva e bela, levantando-se da terra batida, limpando a poeira e vivendo. Ela sim merecia todos os méritos, por possuir a beleza mais peculiar que já encontrara.
Uma vez em uma tarde sonolenta Maria reparou o estranho corpo que a observara. Primeiro, esfregou os olhos com os ramos dianteiros. Olhou novamente. “Ah, que horror! Um girassol caçoando de mim!” Virou-se envergonhada e escondeu-se atrás do grilo que estava a beber água em uma flor. Chico retornou a sua posição, abaixou-se novamente, inclinou-se e viu Maria. Mas não era o ver habitual, ela também o viu. A troca de olhares provocou em ambos calafrios e depois um calor que subia da raiz.
Essas coisas não se explicam, e se explicassem seria insuficiente. Nem o maior sábio sabe o que é, pois se soubesse não seria sábio, pois nem seria humano.
Depois desse primeiro contato as trocas de olhares foram se naturalizando, acontecendo com freqüência. Maria achava que estava ficando doida e Chico ainda culpava o excesso de sol nas manhãs.
Mas a verdade que sempre fica explícita para o narrador engana os personagens.
Eles nunca trocaram uma palavra. Nunca se viram mais de perto. Nunca se tocaram.
Aquele sentimento apesar de não ser consumado teve frutos. Numa manhã chuvosa Maria observou na poça que agora possuía uma pequena florzinha amarela, bem pequenina, nascendo em seu ombro esquerdo. Levou um baita susto e depois com orgulho no peito disse: “Eu sou sim, eu também sou flor”.

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