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Archive for abril \18\UTC 2009

O que deveria ser

eclipse

No dia em que o sol cansado permaneceu deitado e nem quis saber do que estava a acontecer, a noite ficou para almoçar e mandou avisar que ficaria também para jantar e quem sabe não se esticava no sofá. As estrelas mesquinhas zombaram da aurora que estranhou a demora e foi espiar atrás da mesa de jantar. Nesse dia que não era dia o céu encoberto nem hesitou em chamar a tempestade que só por maldade trovejou e apavorou quem ainda dormia na sua mais intensa harmonia. Ela, além de não se importar com o sol disse em alto e bom tom que sua melancolia era mera fantasia e que andava velho, tonto de ilusão. Os pingos apostaram corrida no quadro que repousava na janela, corrompendo a pintura e tornando-a uma simples moldura. Apenas manchas na solidão. O vento corria como um lobo selvagem que uivava e ladrava. Suas patas derrubaram o espelho do banheiro que já não mais inteiro insistia em refletir o dia ensolarado tão ansiado pelo passado. Minha alma confusa catava junto com as fagulhas de vidro toda a poesia que nem ao menos vivia, mas que ainda esperava no caís um sentimento verdadeiro.
No dia que só era escuridão nenhum ser no mínimo são quis sair na rua e provar a sua amargura.
Os meus olhos embaçados por mágoa e decepção nem ousavam falar sobre aquela última canção. Que rasgava toda a pele deixando aparecer às feridas que sucumbiram da saudade daquilo que nem sequer existiu.
No dia que não devia mostrou todo um parecer que demorou para ser. No existir que não quer brotar na realidade, toda sua crueldade, meras mentiras.
No dia que não existiu a lágrima fria caiu e seguiu sem olhar para trás deixando apenas pegadas no meu desamor.

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Gostos

cigarro

Eu não gosto do jeito que você fuma seus cigarros.

A frase ecoou. Ecoou pelas paredes, como era esperado, mas ecoou também dentro da cabeça dele nos infinitos segundos seguintes. Como assim não gosta? Do que ela estava falando? A incógnita marcou o fim da conversa. Nada mais deveria ser dito. Ele empurrou a porta e deixou que batesse. O estrondo fora ouvido até pelos azulejos da cozinha. Ela tinha dito as últimas palavras, que mesmo incoerentes, destruíram a capacidade dele de continuar argumentando, xingando, convencendo. A briga duraria mais longas horas, porém fora interrompida pelo estranho desabafo da garota. Ele, desnorteado, pegou as chaves do carro e no trajeto, tantas vezes repetido, olhou-se no retrovisor e pensou injuriado: Quer dizer que ela me olhou durante todo esse tempo com desprezo toda vez que eu acendia um cigarro. E ele e o vício sabiam que foram muitos. O golpe baixo da garota ainda atingia lugares que ele nem sabia dizer quais eram. Doía, formigava e deixava-o inquieto.
À noite, deitou-se na cama que muitas vezes havia sido mais dela do que dele. As milhares de fotos 3×4 dela na estante, junto com aquele ursinho ridículo eram como um altar. Ele a venerava. Queria dormir e talvez sonhar, mas pediu a Deus que não fosse com ela. A frase circulava sua mente de cima para baixo e por todos os lados. Maldita.
O defeito desconhecido tirou-lhe a paz. Com o intuito de vingar-se começou a pensar nas coisas que ela fazia que ele também não gostava. Como irritava a maneira que se inclinava corcunda na cadeira. Como odiava esperar por ela horas e horas a fio. Como era detestável a maneira que ela batia as unhas longas e vermelhas na mesa quando estava nervosa. Como era insuportável o seu jeito de sempre interrompê-lo na frente dos amigos. A mania de nunca fechar o chuveiro. O barulho dos pingos sucessivos. Ele quase enlouquecia. Como ela conseguia quebrar todas as caixinhas de cd? Como conseguia deixar sempre o mesmo quadro torto, era um Toulouse-Lautrec.Maldita.Virou a cabeça, agarrou-se na almofada velha e cobriu os pés. Maldita.
Fechou os olhos.
Ela estava claramente lá, em sua mente, sorrindo, como nas fotos. Ah, como ela era linda. Como gostava de olhá-la quando ela estava concentrada lendo alguma coisa ou vendo algum filme. Como gostava da maneira que ela olhava para ele quando estava de costas. Coça as minhas costas? Ela pedia incansavelmente. O jeito encantador que declamava seus poemas preferidos, de como cantava aquela música do Tom. Linda. O jeito doce dela de mexer nos cabelos e de como ele achava atraente quando eles caiam no seu rosto. Como era maravilhoso vê-la chegar do salão exibindo suas unhas multicoloridas. Como gostava de acariciar suas coxas depois do banho. Ela estava sempre cheirosa. Linda. Daria a vida para vê-la outra vez dançando como naquela noite. Amava o jeito que ela desarrumava seus cabelos, só para arrumá-los outra vez. Linda. Abriu os olhos, olhou para o reflexo do abajur. Dentro do circulo de luz teve sua quase epifania. Ele gostava que ela não gostasse do jeito que ele fumava, pois se seguisse essa lógica, ela estaria em seu quarto, debaixo das cobertas, pensando nas outras coisas que odiava, mas também que amava nele.

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