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Archive for março \29\UTC 2009

Você

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Achei que só gostar era muito pouco.

A madrugada vem me visitar, bate a minha porta e revira algumas lembranças, penso incansavelmente nesse gostar que é pouco e nesse amar que às vezes parece demais. Caçando devaneios e momentos guardados em baús da lembrança, vejo o quanto sinto a sua ausência. É você vivo nos quadros, no cheiro que ficou no travesseiro, na nota de cada música que ousar tocar no meu rádio. São seus filmes espalhados pela minha escrivaninha, seus presentes pelo mural, seus desenhos, provas de amor. Você está diante de tudo.. e precisamente em tudo. Lembro-me do último instante doído que abri a porta para você ir e das tantas alegrias que eclodiram em meu coração em vê-lo chegar. Lembro-me do beijo receoso do último encontro, mas também me lembro de como me deliciei com seu hálito de vinho naquela noite de embriaguez na praia. Nenhuma verdade é incontestável, não gostaria que fôssemos perfeitos. Não, a perfeição indicaria a falta de verdade. Você é o que há de concreto em mim. Deixou de ser plano há muito tempo, deixou a facilidade de ser desconhecido para caminhar junto comigo. Pegou as tristezas que deixei cair pelo caminho e coletou-as para si. Tudo que você sacrificou, as lutas que enfrentou e que perdeu e as que ganhou. Meu único desejo é que tudo agora fosse mais uma vitória, que um abraço selasse nossa cumplicidade.
Lembro-me dos jantares que conversamos sobre a essência de nossas almas e das conclusões que chegamos: você não está na minha vida meramente por acaso. Lembro-me das caminhadas intermináveis, das idas ao cinema na paulista, de como discutíamos todos e quaisquer filmes que víamos. E como era bom quando você argumentava melhor do que eu. Lembro-me dos xampus que te dei e do cheiro de cada um deles. Lembro-me de fuçar nas suas roupas e roubar seu pijama. Lembro-me dos dias deliciosamente gastos na nossa mais pura ociosidade despojada.
A beleza de outrora me acalma e me dilacera.
Gosto de ser com você. Gosto de ser, sem máscaras. Gosto de ouvir quando me diz que estou linda mesmo descabelada, do seu olhar de doçura mesmo faltando beleza em meu rosto. Gosto de como você elogia meu quadril mesmo eu renegando-o. Amo sentir o cheiro do seus cabelos negros quando estou enlaçada em seu pescoço, mastigar sua bochecha, beijar o seu brinco. Quero e quero fervorosamente, mesmo você acreditando que isso tudo é fruto do meu mimo. Mas acredite, tem coisas que eu não quero mais. Não quero mais destruir todas as minhas cartas de amor. Gostaria de poder ver com clareza o porquê de tudo isso. Não quero mais confrontar minha cabeça e coração. Meus erros podem desmentir minhas palavras, mas não confie neles. As minhas palavras são tradutoras dos meus sentimentos, que pulsam, esperneiam, gritam, mas que ainda não conseguiram aprender a se expressar de outra maneira.
Sinto falta de te ouvir, mesmo quando eu não prestava atenção. Sinto falta do que ainda não vivemos, da Argentina, seus cafés e cinematecas. Da espuma do capuccino que eu viria a tomar enquanto apertaria suas mãos, tão maiores que as minhas. E como você é lindo quando me ensina aquilo que mais sabe, sua excitação quando vai buscar aquele livro ou me mostrar aquela música. Ah, como somos nós. Somos nós regados a muito Vinícius e a poesia, somos nós embalados nas nossas manias, que hoje são mais como rituais. E como não iria lembrar da maneira que você tempera meu corpo e alimenta minha alma. Agora entendo porque é tão difícil escrever para você, porque eu sempre tive medo de não estar ao seu alcance, de não descrever as minúcias que para nós são tão essenciais, porém ao mesmo tempo precisava sintetizar tudo para que esse texto existisse. E ele agora está, metade no papel e metade em meu ventre. Junto do meu coração e nas lágrimas que surgem sem serem chamadas. Nesse gostar que é pouco por não abranger todas as linhas, mas no amar que tem medo de virar livro.

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Adão e Eva – Parte 1

gaiola

Ela cumpre seu destino.
Eva, ainda apreciando os nacos da maçã úmida em seus lábios, sente-se aliviada. Seus pés descalços parecem ser aquecidos pela relva selvagem. Ela, de alguma forma, tem medo do seu feito, mas tem a convicção de que aquilo era o certo. O gosto da maçã a envolve e apaixona. Doce. Seu corpo todo se delicia, ela se entrega. A Cobra estava certa, que sensação maravilhosa! Mal imaginara nos últimos meses que um dia aquilo pudesse acontecer, há muito tempo deitava-se ao lado de Adão e ambos sem dizer nada se sentiam incompletos e vazios. De alguma forma, todos sabiam disso.
O Reino de Deus não era nada além de uma cela escura maquiada de beleza. Quantas vezes ela o viu fraquejar, quantas vezes odiou sua covardia. Ela não, ela conseguiu. E ao completar-se o completara também, agora eles realmente poderiam usufruir um do outro, descobrir-se. A perfeição deixou de ser assustadora, nada mais existia, apenas o que estava por vir.
Desde sua criação, intrigara-se com aquele lugar. A harmonia a incomodava. Desde sempre soube que era ilusório. Queria viver e lá não se vive. Lá não, em algum outro lugar talvez. No entanto, possuía a certeza que iria descobrir onde, isso já não importava mais. Seus planos não se comparavam com o que ela havia de realizar. Ela obteve o poder de agir. E, no fundo, gabava-se da Cobra, estava feliz, radiante. Adão a admiraria durante a eternidade, seria eternamente grato. A amaria, a acolheria e seria somente seu. Ela sempre disse aquilo que ele deixava entalado na garganta. Ela havia se realizado, ele também. Ambos caminhavam para a felicidade, mesmo sem saber que ela existia. Caminhar para o desconhecido com os pés firmes, os calos já não doíam mais. Aquela terra que abafava seus desejos. Eles mereciam isso. Ela fez. Ela sempre quis.Por quê? Ah, ela já havia se perguntado. Já havia passado noites em claro, revirado horas em vão. O porquê não se sabe. Talvez ela estivesse apenas cumprindo uma promessa.

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