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Archive for fevereiro \16\UTC 2009

A visita

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Hoje a melancolia bateu à minha porta. Como foi ao amanhecer, não consegui impedi-la de penetrar por todos os cômodos. Ela se ajeitou em minha cama, acendeu um cigarro e o fumou com crueldade. Espalhou-se pelas gavetas, pelos livros e pelas fotos do mural. Mirava-me de longe com seus olhos mórbidos e baixos. Quando se cansou dos cigarros, resolveu escolher uma música. O seu repertório era composto apenas de músicas perturbadoras e infelizes. O solo de piano caminhava entre minhas entranhas. E foi nesse instante que me entreguei aos seus encantos. Deitei no seu colo e deixei meu pranto seguir seu caminho. A oscilação do sol cessou. Uma nuvem o encobriu e marcou a tendência de que tanto gosto. Céu nublado, azulado e, depois, negro. O ambiente hostil deixava-me fraca e sem vida. A melancolia tinha se apossado de mim. Um arrepio correu desde os meus pés até a cabeça, o nó no pescoço impedia aquela última lágrima de cair. Ela pretendia ficar, se acomodou e parece que encontrara seu lugar. Um dos seus passatempos favoritos era reclamar do quanto à vida é injusta. “Irreal!”, urrava. A visita inesperada já era bem-vinda. Acostumei-me com seu colo, com suas imperfeições. Abracei minhas dores. Calei o silêncio. Gritei, gritei, gritei! E quando cansei, apenas sussurrei. Sussurros roucos de sentidos quase imperceptíveis. Sei que quando ela se for, tudo voltará a ser como antes. O sol brilhará e, à noite, conseguirei enxergar as míseras estrelas. Não que eu não goste da luz, mas admito que a melancolia tenha sua graça. Sempre quando ela vem é assim… Acolhe-me como sua criança, me tortura e ao mesmo tempo me acalma. Enche-me de questionamentos, mas me ensina a viver. É isso que ela é: um inexorável e indispensável paradoxo.

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Incompatibilidade

Ela me roubou minutos, depois horas e quando me deparei havia sido a noite toda. Compartilho com ela minhas inquietações, meus planos e meus pensamentos. Abro meu livro, fecho. Ponho na cabeceira. Penso, deito, sonho. Um sonho sem envolvimento e mistério. Acordo. A luz está fraca e o vento quente. O badalar do relógio marca o futuro amanhecer. Penso em desistir. Levantar e fechar as janelas, mas isso tudo fica apenas no meu planejar. Uma série de questionamentos me bombardeia, são fragmentos de momentos, sejam eles reais ou não. São doces frutos da minha imaginação confusa. Já sinto que nada mais possuo, ela me tirou tudo. Mas em compensação me trouxe a paz. Ah, a paz do silenciar da noite. Sinto a brisa e as gotas do luar. Penso no que sou e no que fui. Tenho uma série de devaneios. É quase um sonho, mas ainda estou com os olhos abertos. O olhar da lua me intimida com suas nuvens em volta, ofuscante e ameaçador. E por que ser claro e coeso, afinal? A noite me traz o encontro com a alma. É de se compreender que ainda fico desnorteada com suas mensagens, afinal é uma língua estranha para mim. Nem Hermes ousou traduzir. Ele dorme no seu aconchego, fico até com inveja, pois sei que ele sonha.
Ah, e não o repreendo, ainda é um jovem mensageiro. Acendo uma vela e me sinto embalada pelo calor da chama. Faço uma oração, penso em uma promessa.. Amanheceu. E eu ainda não consigo me comunicar com ela. Ah, o dia traz consigo a realidade. Dura, crua e sem encanto. É preciso esperar pelo próximo anoitecer..

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O texto a seguir não é de minha autoria.. mas é um texto pelo qual sou extremamente apaixonada e acho-o essencial na vida de qualquer ser humano.

Há sempre uma perda em cada encontro

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Cada encontro está carregado da perda, ou de perdas. Às vezes duas pessoas que se amam (casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade um deles chora, ou fica triste, ou baixa os olhos, ou é invadido por inexplicável melancolia. É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que, quando surge, vem carregado de todas as experiências de desencontros que a pessoa já teve e que a espécie já sofreu. Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas é alguém com quem você se desencontra. Aquele que só emite pouco lhe dando condições de intercalar os seus pontos de vista, é outro com quem você se desencontra. Aquele a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente de desencontro, por mais encontros que você tenha com a arte dele. A pessoa que só pensa naquilo em que vai falar e não naquilo que você está dizendo para ela, é alguém com quem você se desencontra. A pessoa que já vem conversar com você, com posições definidas e tomadas, é alguém com quem você se desencontrará. Alguém que o ama ou o detesta, sem nunca ter sofrido ao seu lado, é alguém desencontrado com você. Cada desencontro é perda, porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade. É a experiência de tantos desencontros o que marca os raros encontros que a vida permite. A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande Encontro (com o Todo, com o Nada?). Por isso talvez seja uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência do Ser. Mas, por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda. A perda é mais adivinhada do que sentida. E no ato de sentir-se feliz, intensamente feliz, associa-se a idéias do passageiro que é tudo, do amanhã cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa. E uma tristeza muito particular se instala: a tristeza feliz. A tristeza feliz, não a que deriva das grandes dores, frustrações ou amarguras. É a que se associa ao momento bom, como a perda inerente a cada encontro, como sentimento de certeza de que tudo aquilo passará… Tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros. Encontros verdadeiros são os que se dão de ‘self` (si mesmo) para ‘self`, e não de inteligência para inteligência, de concordância para concordância, de interesse para interesse. Os encontros verdadeiros prescindem de palavras. Prescindem até, do clássico ‘precisamos conversar’… Quem se alegra demais se distancia da felicidade. Felicidade está mais próxima da paz que da alegria, do silêncio que da festa, do encontro que do debate. A alegria é ‘um Dom Divino, filha do alto Eliseu’, como diz Schiller, o poeta, no verso que abre a ‘Nona Sinfonia’ de Beethoven, mas ouso dizer que ela é divina na medida em que é um Dom, uma graça, uma centelha doada aos homens, para enfrentar a vida.
Eu diria que a alegria não é felicidade, e que a felicidade, muitas vezes, está mais perto da tristeza do que da alegria. Felicidade está mais perto da tristeza, porque a certeza da perda sempre se instala a cada vez em que estamos felizes. Cada encontro está carregado de perda. Nesta vida. E até na outra, que se existe (e permitirá o encontro redentor), precisou da perda desta vida. E esta certeza – a da perda – a que provoca aquela lágrima ou aquela angústia, que a gente não sabe porque às vezes se instala após os verdadeiros encontros. Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um ‘e depois’, após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada.

– ARTHUR DA TÁVOLA, extraído de O Globo – Rio de Janeiro.

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