Eu preciso me proteger do meu próprio veneno. Eu preciso no momento exato não me embriagar de mim. Preciso achar um jeito de equilibrar a minha estranha natureza.
Talvez controlar o turbilhão que é viver em intensidade. Entender a hora de parar e de começar a acreditar em tudo outra vez. A usar de meus destroços como os alicerces para a minha nova morada. E saber não derramar lágrimas por aquilo que se foi e que não volta. Não temer mais esse negro ser que me habita. Mas o transformar em um ser dócil. Ou não, alimentá-lo com luvas de ferro, deixado-o preso numa alta masmorra. Não. Eu preciso domá-lo e ensiná-lo a me respeitar.
Eu preciso de uma noite inteira de felicidade para voltar a acreditar nos meus sonhos mais infantis. Eu quero um carinho a beira mar, um projeto, uma realização. E me lembre de anotar que eu também desejo um grande amor. E um trabalho para enobrecer minha alma difusa.
Eu bebi tanto de mim que tomei um porre. Agora como curar a ressaca se o hálito de cachaça ainda permanece emaranhado nos meus poros? Quem sabe, um dia na floresta, na cachoeira, no mar, resolva. Agora compreendo que os monstros não ficam debaixo da cama. Eles ficam dentro de nós.
Vou reunir meus amigos e festejar o meu eu mais bonito. E mimá-los com abraços sinceros. E se possível enquanto os abraçar, me abraçar também e fazer carinhos nos meus braços. Vou cozinhar para um bocado de gente querida e ver que no gosto da comida eu estou deixando um pedacinho de mim. Esse pedacinho que é amável e amigo. Vou fazer uma festa pra acalentar a alma. Vou saciar a felicidade alheia, vou me nutrir do brilho dos olhos de quem eu mais amo.
Depois eu vou me lavar de tudo aquilo que me fez mal. Purificar mesmo. Com direito a sal grosso, alecrim e guiné.
Logo em seguida vou a uma cartomante para ela me contar aquilo que não sabe. E nem saberá. Mas vou acreditar num futuro bonito e cheio de flores. Vou dizer para meu coração que ele tenha calma e pro meu ego para que ele pare de urrar no meu ouvido. E que ele deixe de ser guloso, porque ele anda comendo demais. Se ele não ouvir, vou deixá-lo de castigo. Cansei de ser sua cúmplice em suas traquinagens.
Não esquecer de me amar em todos os momentos. E não esse amor leviano. Amar mesmo. Com compaixão. Não deixar que os sonhos agonizantes morram. Colocá-los todos agora na UTI e contratar os melhores médicos da alma para tratar deles 24 horas.
Ir resgatar minha essência de menina romântica, mesmo se o amor não vier. Mesmo se a solidão for maior que a esperança. Mesmo se. Não importa.
Ah, imprescindível fazer uma cópia disto e colocar na geladeira. Para que eu não me esqueça e não me perca tanto assim de mim.
