
Desânimo ou quietude?
A espera do amanhã para compensar o hoje. Talvez haja apenas o cuidado maternal com o agora para preservar o depois. Ando tendo dias assim. Nem alegres demais, nem de menos. Encontro-me em uma impensada vivência de águas mansas. E creio que elas me enobrecem. Chega de impulsos, chega dessa exigência visceral de fôlego. Hoje, meu mundo é o que é. Calmo e sereno. Parece-me que finalmente aprendi a ser só. E a solidão me envolve em seu leito e me basta, enfim. Tudo parece bastar pelo que é. E quando aperta demais, não hesito em convocar as boas companhias e me permitir ter tardes agradáveis. Ao lado de quem, imagino com um pouco de certeza, que entendem esse meu novo ser que está germinando em minha alma. Ouvi dizer que estou em uma fase de transição. Será que da mesma forma que as lagartas saem dos casulos, ou que os insetos abandonam as antigas vestimentas? Para evoluir, crescer, transcender? Ninguém sabe. Só sei que o hoje me deixa uma paz que me inquieta, às vezes. Será que foi retirada de mim a intensidade? Que algo em mim mudou e eu nem pude consentir com a mudança?
Só sei que o amanhã será tranqüilo, e eu não abandonarei a oportunidade de uma boa conversa, nem de um gostoso jantar e muito menos de um abraço querido. Não, eu não desisti de embonecar-me, mesmo que fique dentro de mim pensando estar invisível e finjo não ouvir os olhos curiosos na rua.
Será que o desejo se cumpriu? Há algum tempo recebi de presente um cristal com a promessa de me garantir a invisibilidade. Será que eu ainda o quero? E a minha vontade por noites calorosas de novidades? Cansei delas? Ou apenas estou tomando fôlego para um novo amanhecer inesperado cheio de raios de sol. Estranho-me, enfim. Serei eu este ser pacífico e calmo que diz estar fadigado de bobeiras banais? O que desejo para mim vem da concretude de certezas não muito floreadas. Eu quero finalmente conseguir fincar minhas raízes em minha própria existência. E nada de tempestades. Nada de alagamentos. Nada de tormentas.
Quem sabe, estou tendo o que preciso e nem consigo perceber. O que me vem à mente são rios límpidos cheios de carpas. Elas nadam dentro de mim enquanto aguardo constatar o que serei. Aceito enfim, a dádiva do silêncio e da calma. Internamente quero compreender. Estou aqui, sentada em um quarto ao entardecer. Cuidando de mim. Como um animal que lambe as feridas do último inverno. Sei que novidades virão. Mas agora eu só desejo a mim mesma e mais nada.
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