
Faz muito tempo que adormeci.
Pensei que havia sido apenas um cochilo, uma coisa à toa, talvez, mas nos meus olhos estava estampado o passar de uma eternidade, ou duas, quem sabe. Olhei ao redor e vi algumas roupas espalhadas pelo chão, uma taça quebrada, um envelope vazio. A cama desarrumada com o colchão a mostra, os travesseiros no chão. Quanto tempo fazia desde a última vez? Eu estava desnorteada, confusa, insegura. A vida tão ausente, apenas fatos retratavam o que passou. A realidade me esbofeteava e me olhava com reprovação. Das minhas mãos trêmulas iam caindo os pedaços de esperança no chão, que formavam mil pequenas migalhas. A vã compreensão de mim mesma perdeu-se junto ao tempo, estava com o corpo e a alma de um ser estranho. Não me reconhecia mais, não me encontrava. A falsa lógica dos acontecimentos me enlouquecia e angustiava, o que veio antes e qual foi à conseqüência? A memória falha procura refúgio nas lembranças de tempos felizes. A vida quebradiça, agonizante, branca da morte e fria pelo desamor. Revirei gavetas, procurei fotos, cartas. Na busca incessante por quem eu era, por meus princípios. Tudo em branco. Minha vida fora apagada do meu próprio consentimento, fiz um pacto com a solidão e abracei com unhas e dentes o esquecimento. E não me lembrava o porquê de tudo se teria sido algo que provoquei ou se fui colocada numa cilada, uma maldade qualquer.
A porta bate e nesse mesmo momento a esperança do chão se junta e apesar de colada com desesperança, acredito que ainda assim tem o seu valor. No vão do corredor avistei sapados pretos, muito desgastados, reluzidos pela luz do rodapé. Quem poderia ainda lembra-se de mim se até a solidão já se esquecera de me fazer companhia? A chave girou e a porta, receosa, abriu-se rangendo. Troquei olhares com o visitante. Fui invadida por uma sensação nunca antes vista, nunca antes imaginada. Era eu mesma na porta do lado de fora de casa e era eu também do outro lado. Um encontro inusitado comigo mesma, um encontro que esperava, mas em linguagem não literal. Por devaneio ou sonho já não sei a veracidade de tudo isso, e já não importa mais. A visita pediu permissão para entrar, sentou-se na poltrona velha, reclinou-se para baixo e começou:
- Sabe, você desperta o que há de pior em mim.. Preciso me livrar de você.
Desnorteada com o comentário do “outro eu” permaneci em choque. E ela continuou:
– Você já me fez mal demais, já destruiu tudo que poderia. Deixou-me sozinha no escuro.. Olha só para você, é isso o que você quer? Se deixar levar por um esquecimento preguiçoso, um esquecimento que não se importa mais com você.. E sabe, conseqüentemente isso tudo que você tem feito diz respeito também a mim.
- E eu – acrescentou – Eu quero ser feliz.
Em um movimento súbito, a estranha personagem debruçou-se nos joelhos e chorou. Um choro de criança, mas sem inocência. Um choro de quem não tem motivos para parar de chorar. Levantou-se e abraçou-me com as lágrimas correndo pelo meu ombro.
- O pior de tudo isso que eu ainda acredito em você, acredito que ainda podemos ser uma só. Você se sente sozinha e eu também, está faltando algo, mas não posso mais aceitar isso que você tem feito.
A culpa apunhalou-me e corroeu os ossos. Doía, doía e matava aos poucos. A falta de conexão lógica do porquê do estranho desabafo também me perturbava. Sabia que estava errada, sem saber exatamente o que teria feito na segregação daquela minha alma confusa. Sentei no chão remendado, no frio buraco do assoalho. Coloquei as mãos no rosto e depois como quem tenta puxar uma máscara devidamente colada arranhei-me na tentativa vã de tirar de mim aquele monstro que estaria destruindo uma vida e impedindo, como maior obstáculo, a felicidade. O que me entontecia mais é que sabia que um dia eu também sonhara com o sonho de felicidade eterna, que tinha boa conduta e lutava pelos meus princípios ainda irreais, cor-de-rosa. O que havia acontecido comigo? Os pensamentos desconexos me levaram a um turbilhão de sensações horríveis. Doía na alma, no corpo e me envergonhava. A outra parte de mim continuou:
- Pare de se maltratar e trate de mudar de vez essa sua vida. Pare de se prender ao passado, não vê que ele está lhe impregnando de tristeza? Largue disso.. Saiba que o futuro é somente feito do agora. E eu sei que nunca é tarde para a transformação necessária.. Eu poderia muito bem ter me livrado logo de você, mas a condição para isso é livrar-me também de mim. Você é algo intrínseco a mim.. Então, por favor, eu lhe imploro..
Naquele momento descobri que havia uma bipolaridade espiritual naquele cômodo. A alma boa tentava salvar o fragmento que restou da alma destrutiva. A primeira era amor enquanto a segunda, ódio. E que ódio senti quando soube que eu era a parte que se deteriorara com o tempo. Olhei para o teto da sala escura, pensei em alguma solução imediata e vi que estava me deparando com duas alternativas possíveis: desistir ou lutar, dar a sentença da morte ou viver. E por mais turva que estivesse minha mente a decisão era fácil de ser tomada. Enlacei-me nos braços dela e chorei baixinho. Fiz promessas de felicidade. Ela beijou-me na testa e sussurrou:
- É, minha pequena, acho que você finalmente se encontrou.