- Eu não tenho culpa de gostar de você. Essa responsabilidade não é minha.
- E é de quem então, Maria? Me diz que eu quero saber.
- Eu não sei. Talvez seja sua, nossa, da vida. Mas você não pode me culpar pelos meus sentimentos. Você sabe, quando a gente vai ver eles já tem corpo, forma e saem andando por aí. Eu não tenho controle do que sinto.
- Pois deveria.
- Deveria, mas não tenho. Eu sou descontrolada.
Alguns diálogos hipotéticos rondavam a cabeça de Maria. Será que um dia ele perguntaria algo assim, ou a acusaria desse amor que teima em continuar? O amor era ,às vezes, vergonhoso e marginalizado. Ela não queria que ele soubesse que depois de tudo:, vendavais, verões e tempestades, o sentimento continuava ali, intacto e inquebrável. Ela tinha medo de encontrá-lo e que as bochechas a entregassem. Corassem demais. As pernas tremessem demais. As mãos suassem em cachoeira. Como controlar aquilo que não se tem por querer? Se pudesse optar, ia apagá-lo de vez. É rude pedir para alguém sumir da história? E mesmo assim, mesmo com todos esses meses de distância, ele ainda estava ali. Em músicas, gavetas, livros, cheiros, comidas, esquinas, goles. É inútil avisar ao coração que o amor acabou.
Foram poucos dias de convivência para muito sentimento idealizado. A paixão de fato existiu, ou era uma projeção abstrata do que era ou do que gostaria que fosse, essa tal felicidade? Como questionar emoções? Elas respondem por impulso. E Maria, nunca fora muito racional, ainda mais quando se via assim, perdidamente apaixonada. Quem era então, o verdadeiro destinatário desse amor? O Fernando pensado ou o vivido? Difícil saber. Dizem que quando desejamos muito algo, isso toma proporções absurdas. Se, por ventura, um dia ela pudesse consumar todo o amor reprimido. Seria suficiente? Ele daria a ela a vida que sonhou? Ou a graça , vem do fato de ser uma charmosa impossibilidade. As ideologias não morrem, pois nunca são atingidas.
Ela custava a crer que nada havia sido real. O colar que esqueceu no banco de trás do carro, o vinho Merlot que tomaram, os pratos sujos na pia, as canecas de café. Tudo aquilo existiu. Porque só amor era invenção? Havia cúmplices e, por mais que eles não pudessem depor a respeito, estavam lá.
No início fora mais difícil. Quando segundos tortuosos a rasgaram por dentro e a voz de Fernando entoava a frase que mais parecia fagulhas de vidro.
- Sabe Maria, a gente precisa se afastar.
Alguém devia tê-la informado que a gente só se afasta do que é físico, carnal. Porque as lembranças continuam lá, infernizando e apertando o coração de quem foi deixada em casa com uma infinitude de carinhos. Onde guardá-los? Não coube na dispensa essa caixa abarrotada de amor não vivido. Cômodos são pequenos demais para guardar aquilo que não se vê. A palpável concretude que nunca existiu. E hoje, ela era apenas um apartamento vazio com saudade de uma mobília que nunca chegou.
E repetindo as historias do que havia sido aquela relação era como se pudesse viver tudo uma outra vez. E a vida fora marcada com um antes e um depois. Fernando fora mais que um divisor. Deixou marcas que jamais se apagariam, mesmo ao anoitecer. Uma dissertação desconexa e contínua.
E em noites inundadas, Maria tentava redigir a fim de exorcizar tudo o que não foi, não pode. Foram inúmeros textos e poesias. Parágrafos e versos.
Um dia, Maria recostou na antiga poltrona vermelha e leu no antigo livro em cima da bancada :
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
- Talvez Leminski tenha razão.
O texto despertava nela um eu repleto de inspiração. E o que restava senão reescrever essa história sem final?
- Preciso reescrever o nosso amor. – concluiu em epifania.
Foi o que fez. Em um domingo nublado e vazio. Por um momento, pensou que a responsabilidade do amor é somente daqueles que o vivem.
E se o amor é ficção, ele nada mais é que um conto, perdido na noite. Que não acaba porque pode ser lido por corações fartos ou famintos.
