14
Dez
09

Insaciável coração

É necessário estar sempre apaixonado.

Uma vida sem paixão é uma vida limitada pela própria idéia de sentir-se apaixonado. Necessito da paixão como força motriz para minhas articulações. Acredito que tudo isso faça parte da minha essência tão peculiar, que não é só uma característica intrínseca a mim, mas sim uma parte do meu corpo humano. Um sistema orgânico unicamente meu. Para que ele funcione bem é necessário estar sempre e momentaneamente apaixonado. A sensação que escorre nas mãos suadas, nos pés trêmulos e que caminha pausadamente pela barriga e deságua nos lábios cerrados. Uma sensação sem destinatário. Isso é o que menos importa. O despertar é a formalidade mais banal, mais sem sentido. Apaixono-me perdidamente pelos meus sonhos, pelas minhas ilusões.
E quantas vezes já suspirei de amor por um momento ou por uma nota de um violão. O objeto pelo qual destinamos nossas expectativas é irrelevante. Nada importa. Apaixonante são sim os vícios reprimidos, o hálito alcoolizado na madrugada, a roupa descartada, o silêncio dos olhares cúpidos. Delicio-me com o sol estonteante, com o sereno, a casa vazia.
E esses sim são os amores sem limites, desmedidos, realmente aproveitados em todos os seus átomos. Amor em vão, para mim, não existe. Não se descarta o que é absoluto em sua totalidade. É por isso meu corpo, dentro de minhas menores nervuras, pede a cada segundo vivido e incansavelmente sussurra em minha loucura rotineira: apaixone-se, apaixone-se, apaixone-se.
E sei que se não o fizer hoje, amanhã talvez seja tarde demais para tentar.

Inspirado em Baudelaire.

14
Out
09

Ser e estar

banco

Estou em território desconhecido. Esfrego os olhos na tentativa de compreender melhor o cenário em que me encontro. Por um momento culpo a miopia, aquela que sempre distorceu tudo ao meu redor. Mas continuo sem conhecer tal ambiente, não há nada em minhas lembranças que me recorde de já ter estado aqui. Busco qualquer sensação conhecida. Porém, não há qualquer sensação disponível, simplesmente porque não é permitido sentir. Aqui não há terra, mar, vida ou morte. È o vazio materializado, mas não palpável.
Busco incansavelmente qualquer porta de saída, alguma maneira de voltar ao conhecido. O vazio em que me encontro não só assusta, mas também me desespera. Não tenho para onde correr e nem sei se ao menos isso é possível. Estou limitada ao nada e por tudo. Tenho dificuldade de lidar com o vácuo, pois nunca havia estado nele e pelo que sei isso é humanamente impossível.
Mesmo sendo vazio, esse para mim é um vazio incompleto. Falta a vã idéia coesa de totalidade. É um sentir medíocre, uma possibilidade crua, um desespero tolerável. É um ambiente inóspito. Nem melancolia lá existe. A melancolia é egoísta, pelo menos comigo ela sempre foi. Gosta de me tomar por inteira e não larga os dentes de meu corpo facilmente. Ela vive do meu sangue e é inevitável que assim seja. Ela é como um vírus, que só existe quando atado a sua fonte de vida.
O nada sou eu. Eu sou o nada. Nossa imperfeição é nossa semelhança. E nesse mundo de metades uma simples semelhança já nos torna iguais por completo. Somos pedaços dotados exclusivamente da falta. E talvez seja por isso que estou aqui, para juntar-me a algo tão incompleto quanto eu. E se não sou um ser real como exigir que tudo também seja? Alguém deve ter me colocado aqui por motivo qualquer, de por ventura juntar um quebra-cabeça, ainda que com peças que não se encaixam. Simplesmente pela vontade de juntar-me a algo. A algo a que sou incompatível, mas que pela falta de algo melhor é temporariamente compatível. Ou será que eu mesma me destinei à incompreensão por não agüentar mais não encontrar a saída pela qual tanto esperei?
Entreguei-me ao nada quando desisti da conformidade do todo? Ao colocar-me no vazio, a aceitação da desistência seria mais fácil do que se eu estivesse no mundo real. De fato nós temos a mesma concepção das coisas juntamente com a eterna pretensão de ser algo.
Outrora senti alguma coisa parecida com isso. Enquanto caminhava no escuro das minhas olheiras. Olheiras de quem dorme em demasia para fugir da ausência. Da ausência de tudo e de si mesmo.

13
Out
09

No espelho

espelho

Faz muito tempo que adormeci.
Pensei que havia sido apenas um cochilo, uma coisa à toa, talvez, mas nos meus olhos estava estampado o passar de uma eternidade, ou duas, quem sabe. Olhei ao redor e vi algumas roupas espalhadas pelo chão, uma taça quebrada, um envelope vazio. A cama desarrumada com o colchão a mostra, os travesseiros no chão. Quanto tempo fazia desde a última vez? Eu estava desnorteada, confusa, insegura. A vida tão ausente, apenas fatos retratavam o que passou. A realidade me esbofeteava e me olhava com reprovação. Das minhas mãos trêmulas iam caindo os pedaços de esperança no chão, que formavam mil pequenas migalhas. A vã compreensão de mim mesma perdeu-se junto ao tempo, estava com o corpo e a alma de um ser estranho. Não me reconhecia mais, não me encontrava. A falsa lógica dos acontecimentos me enlouquecia e angustiava, o que veio antes e qual foi à conseqüência? A memória falha procura refúgio nas lembranças de tempos felizes. A vida quebradiça, agonizante, branca da morte e fria pelo desamor. Revirei gavetas, procurei fotos, cartas. Na busca incessante por quem eu era, por meus princípios. Tudo em branco. Minha vida fora apagada do meu próprio consentimento, fiz um pacto com a solidão e abracei com unhas e dentes o esquecimento. E não me lembrava o porquê de tudo se teria sido algo que provoquei ou se fui colocada numa cilada, uma maldade qualquer.
A porta bate e nesse mesmo momento a esperança do chão se junta e apesar de colada com desesperança, acredito que ainda assim tem o seu valor. No vão do corredor avistei sapados pretos, muito desgastados, reluzidos pela luz do rodapé. Quem poderia ainda lembra-se de mim se até a solidão já se esquecera de me fazer companhia? A chave girou e a porta, receosa, abriu-se rangendo. Troquei olhares com o visitante. Fui invadida por uma sensação nunca antes vista, nunca antes imaginada. Era eu mesma na porta do lado de fora de casa e era eu também do outro lado. Um encontro inusitado comigo mesma, um encontro que esperava, mas em linguagem não literal. Por devaneio ou sonho já não sei a veracidade de tudo isso, e já não importa mais. A visita pediu permissão para entrar, sentou-se na poltrona velha, reclinou-se para baixo e começou:
- Sabe, você desperta o que há de pior em mim.. Preciso me livrar de você.
Desnorteada com o comentário do “outro eu” permaneci em choque. E ela continuou:
– Você já me fez mal demais, já destruiu tudo que poderia. Deixou-me sozinha no escuro.. Olha só para você, é isso o que você quer? Se deixar levar por um esquecimento preguiçoso, um esquecimento que não se importa mais com você.. E sabe, conseqüentemente isso tudo que você tem feito diz respeito também a mim.
- E eu – acrescentou – Eu quero ser feliz.
Em um movimento súbito, a estranha personagem debruçou-se nos joelhos e chorou. Um choro de criança, mas sem inocência. Um choro de quem não tem motivos para parar de chorar. Levantou-se e abraçou-me com as lágrimas correndo pelo meu ombro.
- O pior de tudo isso que eu ainda acredito em você, acredito que ainda podemos ser uma só. Você se sente sozinha e eu também, está faltando algo, mas não posso mais aceitar isso que você tem feito.
A culpa apunhalou-me e corroeu os ossos. Doía, doía e matava aos poucos. A falta de conexão lógica do porquê do estranho desabafo também me perturbava. Sabia que estava errada, sem saber exatamente o que teria feito na segregação daquela minha alma confusa. Sentei no chão remendado, no frio buraco do assoalho. Coloquei as mãos no rosto e depois como quem tenta puxar uma máscara devidamente colada arranhei-me na tentativa vã de tirar de mim aquele monstro que estaria destruindo uma vida e impedindo, como maior obstáculo, a felicidade. O que me entontecia mais é que sabia que um dia eu também sonhara com o sonho de felicidade eterna, que tinha boa conduta e lutava pelos meus princípios ainda irreais, cor-de-rosa. O que havia acontecido comigo? Os pensamentos desconexos me levaram a um turbilhão de sensações horríveis. Doía na alma, no corpo e me envergonhava. A outra parte de mim continuou:
- Pare de se maltratar e trate de mudar de vez essa sua vida. Pare de se prender ao passado, não vê que ele está lhe impregnando de tristeza? Largue disso.. Saiba que o futuro é somente feito do agora. E eu sei que nunca é tarde para a transformação necessária.. Eu poderia muito bem ter me livrado logo de você, mas a condição para isso é livrar-me também de mim. Você é algo intrínseco a mim.. Então, por favor, eu lhe imploro..
Naquele momento descobri que havia uma bipolaridade espiritual naquele cômodo. A alma boa tentava salvar o fragmento que restou da alma destrutiva. A primeira era amor enquanto a segunda, ódio. E que ódio senti quando soube que eu era a parte que se deteriorara com o tempo. Olhei para o teto da sala escura, pensei em alguma solução imediata e vi que estava me deparando com duas alternativas possíveis: desistir ou lutar, dar a sentença da morte ou viver. E por mais turva que estivesse minha mente a decisão era fácil de ser tomada. Enlacei-me nos braços dela e chorei baixinho. Fiz promessas de felicidade. Ela beijou-me na testa e sussurrou:
- É, minha pequena, acho que você finalmente se encontrou.

09
Out
09

Desassossegados

A Raça dos Desassossegados

À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.

Martha Medeiros

18
Jun
09

Atraso da Inspiração

Enquanto ela não vem…

EMBRIAGUEM-SE
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

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Charles Baudelaire

01
Jun
09

Maria não era flor

Maria não era flor. Nem ousava ser, não tinha pétala e nem botão. Maria não tinha cor, não tinha cheiro. Só verde e do verde bem sem graça. O verde que só é verde porque não pode ser outra cor, mas se pudesse ser de cor nenhuma, seria. Maria tinha se acostumado com seu destino. No começo se incomodava em ficar entre a terra batida e as pegadas, mas com o tempo descobriu uma maneira de se sentir confortável. Maria estava lá, estática. Ela deixava-se levar pelo vento quando estava de pé. Quando deitada, servia de apoio para insetos. Não os temia, eles não gastariam seu tempo com ela. Gostava de observar o cair da tarde, gostava do calor do sol e do olhar da lua. Gostava de coisas simples, e para quê ser mais complexo? Maria era Maria porquê quis, senão seria graminha ou matinho. Mas não gostava do diminutivo, era pejorativo. Maria era Maria. Pelo menos o nome tinha alguma graça. Não invejava as flores do jardim. “Ter beleza, cansa” concluiu. Mas bem que ela gostaria de ter, mas só para ver como é. Maria não era imponente e nem dava frutos. Vivia bem em sua mediocridade.
Chico era um girassol. Chico era Chico porque quiseram e gostava de ser assim. Chico tinha beleza até demais. Apaixonava e seduzia, ele sabia que era bom nisso. Tomava banho de sol e água fresca, tinha todas as mordomias. Todos conheciam Chico, era o girassol mais bonito de todo o jardim. Todas as flores suspiravam por ele. Maria não. Maria não o conhecia, nunca havia olhado para ele. Imagine só, olhar o girassol. Que idéia mais sem sentido. Chico e Maria não se conheciam. Até agora.
Chico, nostálgico em uma tarde pensava na vida. Maria não pensava em nada. Ele debruçou-se no horizonte e suspirou, ela apenas suspirou. Chico estava cansado de ser girassol. “ Eu bem que poderia ser um matinho qualquer”pensou. Olhou para baixo e viu Maria encostada em um galho. “Quem é esse matinho?” Questionou-se. Depois se estranhou, porque gostaria de saber? É apenas um matinho..verde, amassado e sem graça. Para quem é amarelo tudo é mais fácil. A vida era fácil demais, os insetos pequenos demais e as abelhas nem faziam mais cócegas. Observando Maria ele invejou sua paz, ah, invejara a brisa ,o toque macio nas não-folhas de Maria, nos seus ramos mastigados pelas formigas menos exigentes. Chico nunca havia desejado não ser Chico e muito menos pensou que em algum aspecto gostaria de ser mato, matinho, lixo.
Esses estranhos pensamentos o deixavam neurótico. Era seu ego lhe dizendo “ o que é isso rapaz, você? Matinho” e sua mente confrontando “ Ué, por que não?”. “Ah, que bobagem”- pensou. “Devo ter tomado muito banho de sol pela manhã”. Virou-se para cima, admirando o céu azul. Mas não resistiu olhou de rabo de olho para Maria. Reparou em sua mediocridade e não sabe como achou bela. Achou essa idéia de humildade até que interessante, talvez por nunca ter tido vontade de ser humilde, ou melhor, nunca imaginou ser. Ser Chico estava acima de ser qualquer outra coisa. Era Chico, o girassol.
Ele se flagrou algumas vezes descendo de seu pedestal e a observando. Quando percebia, condenava-se. Mas depois de algum tempo deixou de se punir e passou a arranjar milhares de justificativas do tipo, aqui o vento bate mais leve, não desarruma as pétalas impecáveis.
E justificando-se, ele foi descobrindo-a e a cada dia a achava mais bela. Ah, as outras flores não sabiam nada da vida. Ela sim era merecedora de elogios. Estava viva e bela, levantando-se da terra batida, limpando a poeira e vivendo. Ela sim merecia todos os méritos, por possuir a beleza mais peculiar que já encontrara.
Uma vez em uma tarde sonolenta Maria reparou o estranho corpo que a observara. Primeiro, esfregou os olhos com os ramos dianteiros. Olhou novamente. “Ah, que horror! Um girassol caçoando de mim!” Virou-se envergonhada e escondeu-se atrás do grilo que estava a beber água em uma flor. Chico retornou a sua posição, abaixou-se novamente, inclinou-se e viu Maria. Mas não era o ver habitual, ela também o viu. A troca de olhares provocou em ambos calafrios e depois um calor que subia da raiz.
Essas coisas não se explicam, e se explicassem seria insuficiente. Nem o maior sábio sabe o que é, pois se soubesse não seria sábio, pois nem seria humano.
Depois desse primeiro contato as trocas de olhares foram se naturalizando, acontecendo com freqüência. Maria achava que estava ficando doida e Chico ainda culpava o excesso de sol nas manhãs.
Mas a verdade que sempre fica explícita para o narrador engana os personagens.
Eles nunca trocaram uma palavra. Nunca se viram mais de perto. Nunca se tocaram.
Aquele sentimento apesar de não ser consumado teve frutos. Numa manhã chuvosa Maria observou na poça que agora possuía uma pequena florzinha amarela, bem pequenina, nascendo em seu ombro esquerdo. Levou um baita susto e depois com orgulho no peito disse: “Eu sou sim, eu também sou flor”.

vangogh_sunflowers1888

02
Mai
09

Dia da limpeza

Hoje resolvi fazer faxina no meu coração.
De vassouras e avental ajoelhei-me, coloquei os óculos para enxergar com mais clareza o estrago que havia ali.
Estavam lá, frustrações, culpa, remorso, dor todas espalhas pelo assoalho. O que, no entanto, daria mais trabalho eram as desilusões que grudaram como limo no rodapé.
Porém um coração sujo é melhor do que um vazio.Sou convicta disso.
Comecei esfregando com lavanda a culpa e o remorso que juntas formavam o fungo mais tenebroso que já vi. Passei um pano quente na dor, o vidro continuou um tanto quanto embaçado, mas já dava para enxergar ao fundo os raios de sol. Um coração mal tratado não deixa a luz entrar. Frustrações só abraçam uma boa esponja que ao fazer movimentos contínuos acaricia a alma. Era hora da decepção.
Assustei-me, calafrios só de pensar em tocá-las. Estavam tão presas, de unhas e dentes agarrados com força. O maior problema da decepção que para retirá-las é necessário um pouco de ilusão e expectativa. Para limpá-las é preciso usar os mesmos ingredientes que foram escalados para fazê-las. A questão que sempre me incomodou é que elas não são feitas sozinhas. Um personagem externo também foi essencial para sua composição. E ele? Não posso misturar a limpeza. O personagem externo precisa ser exterminado, pois tudo que ele toca, estraga.
Já foi muito difícil abrir as portas e resolver transformar o coração, tão escondido, tão debilitado.
Não irei desistir agora.
Junto em um frasco os ingredientes que já possuo, volto as minhas anotações.

Para limpar desilusões

- Ilusão perdida
- Expectativa fragmentada
- Falsas palavras
- Sonhos bandidos
- Choro calado

Misturo tudo com colher de pau até formar um líquido homogêneo. Despejo.
Borbulha.Queima.Combustão.

18
Abr
09

O que deveria ser

eclipse

No dia em que o sol cansado permaneceu deitado e nem quis saber do que estava a acontecer, a noite ficou para almoçar e mandou avisar que ficaria também para jantar e quem sabe não se esticava no sofá. As estrelas mesquinhas zombaram da aurora que estranhou a demora e foi espiar atrás da mesa de jantar. Nesse dia que não era dia o céu encoberto nem hesitou em chamar a tempestade que só por maldade trovejou e apavorou quem ainda dormia na sua mais intensa harmonia. Ela, além de não se importar com o sol disse em alto e bom tom que sua melancolia era mera fantasia e que andava velho, tonto de ilusão. Os pingos apostaram corrida no quadro que repousava na janela, corrompendo a pintura e tornando-a uma simples moldura. Apenas manchas na solidão. O vento corria como um lobo selvagem que uivava e ladrava. Suas patas derrubaram o espelho do banheiro que já não mais inteiro insistia em refletir o dia ensolarado tão ansiado pelo passado. Minha alma confusa catava junto com as fagulhas de vidro toda a poesia que nem ao menos vivia, mas que ainda esperava no caís um sentimento verdadeiro.
No dia que só era escuridão nenhum ser no mínimo são quis sair na rua e provar a sua amargura.
Os meus olhos embaçados por mágoa e decepção nem ousavam falar sobre aquela última canção. Que rasgava toda a pele deixando aparecer às feridas que sucumbiram da saudade daquilo que nem sequer existiu.
No dia que não devia mostrou todo um parecer que demorou para ser. No existir que não quer brotar na realidade, toda sua crueldade, meras mentiras.
No dia que não existiu a lágrima fria caiu e seguiu sem olhar para trás deixando apenas pegadas no meu desamor.

04
Abr
09

Gostos

cigarro

Eu não gosto do jeito que você fuma seus cigarros.

A frase ecoou. Ecoou pelas paredes, como era esperado, mas ecoou também dentro da cabeça dele nos infinitos segundos seguintes. Como assim não gosta? Do que ela estava falando? A incógnita marcou o fim da conversa. Nada mais deveria ser dito. Ele empurrou a porta e deixou que batesse. O estrondo fora ouvido até pelos azulejos da cozinha. Ela tinha dito as últimas palavras, que mesmo incoerentes, destruíram a capacidade dele de continuar argumentando, xingando, convencendo. A briga duraria mais longas horas, porém fora interrompida pelo estranho desabafo da garota. Ele, desnorteado, pegou as chaves do carro e no trajeto, tantas vezes repetido, olhou-se no retrovisor e pensou injuriado: Quer dizer que ela me olhou durante todo esse tempo com desprezo toda vez que eu acendia um cigarro. E ele e o vício sabiam que foram muitos. O golpe baixo da garota ainda atingia lugares que ele nem sabia dizer quais eram. Doía, formigava e deixava-o inquieto.
À noite, deitou-se na cama que muitas vezes havia sido mais dela do que dele. As milhares de fotos 3×4 dela na estante, junto com aquele ursinho ridículo eram como um altar. Ele a venerava. Queria dormir e talvez sonhar, mas pediu a Deus que não fosse com ela. A frase circulava sua mente de cima para baixo e por todos os lados. Maldita.
O defeito desconhecido tirou-lhe a paz. Com o intuito de vingar-se começou a pensar nas coisas que ela fazia que ele também não gostava. Como irritava a maneira que se inclinava corcunda na cadeira. Como odiava esperar por ela horas e horas a fio. Como era detestável a maneira que ela batia as unhas longas e vermelhas na mesa quando estava nervosa. Como era insuportável o seu jeito de sempre interrompê-lo na frente dos amigos. A mania de nunca fechar o chuveiro. O barulho dos pingos sucessivos. Ele quase enlouquecia. Como ela conseguia quebrar todas as caixinhas de cd? Como conseguia deixar sempre o mesmo quadro torto, era um Toulouse-Lautrec.Maldita.Virou a cabeça, agarrou-se na almofada velha e cobriu os pés. Maldita.
Fechou os olhos.
Ela estava claramente lá, em sua mente, sorrindo, como nas fotos. Ah, como ela era linda. Como gostava de olhá-la quando ela estava concentrada lendo alguma coisa ou vendo algum filme. Como gostava da maneira que ela olhava para ele quando estava de costas. Coça as minhas costas? Ela pedia incansavelmente. O jeito encantador que declamava seus poemas preferidos, de como cantava aquela música do Tom. Linda. O jeito doce dela de mexer nos cabelos e de como ele achava atraente quando eles caiam no seu rosto. Como era maravilhoso vê-la chegar do salão exibindo suas unhas multicoloridas. Como gostava de acariciar suas coxas depois do banho. Ela estava sempre cheirosa. Linda. Daria a vida para vê-la outra vez dançando como naquela noite. Amava o jeito que ela desarrumava seus cabelos, só para arrumá-los outra vez. Linda. Abriu os olhos, olhou para o reflexo do abajur. Dentro do circulo de luz teve sua quase epifania. Ele gostava que ela não gostasse do jeito que ele fumava, pois se seguisse essa lógica, ela estaria em seu quarto, debaixo das cobertas, pensando nas outras coisas que odiava, mas também que amava nele.

29
Mar
09

Você

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Achei que só gostar era muito pouco.

A madrugada vem me visitar, bate a minha porta e revira algumas lembranças, penso incansavelmente nesse gostar que é pouco e nesse amar que às vezes parece demais. Caçando devaneios e momentos guardados em baús da lembrança, vejo o quanto sinto a sua ausência. É você vivo nos quadros, no cheiro que ficou no travesseiro, na nota de cada música que ousar tocar no meu rádio. São seus filmes espalhados pela minha escrivaninha, seus presentes pelo mural, seus desenhos, provas de amor. Você está diante de tudo.. e precisamente em tudo. Lembro-me do último instante doído que abri a porta para você ir e das tantas alegrias que eclodiram em meu coração em vê-lo chegar. Lembro-me do beijo receoso do último encontro, mas também me lembro de como me deliciei com seu hálito de vinho naquela noite de embriaguez na praia. Nenhuma verdade é incontestável, não gostaria que fôssemos perfeitos. Não, a perfeição indicaria a falta de verdade. Você é o que há de concreto em mim. Deixou de ser plano há muito tempo, deixou a facilidade de ser desconhecido para caminhar junto comigo. Pegou as tristezas que deixei cair pelo caminho e coletou-as para si. Tudo que você sacrificou, as lutas que enfrentou e que perdeu e as que ganhou. Meu único desejo é que tudo agora fosse mais uma vitória, que um abraço selasse nossa cumplicidade.
Lembro-me dos jantares que conversamos sobre a essência de nossas almas e das conclusões que chegamos: você não está na minha vida meramente por acaso. Lembro-me das caminhadas intermináveis, das idas ao cinema na paulista, de como discutíamos todos e quaisquer filmes que víamos. E como era bom quando você argumentava melhor do que eu. Lembro-me dos xampus que te dei e do cheiro de cada um deles. Lembro-me de fuçar nas suas roupas e roubar seu pijama. Lembro-me dos dias deliciosamente gastos na nossa mais pura ociosidade despojada.
A beleza de outrora me acalma e me dilacera.
Gosto de ser com você. Gosto de ser, sem máscaras. Gosto de ouvir quando me diz que estou linda mesmo descabelada, do seu olhar de doçura mesmo faltando beleza em meu rosto. Gosto de como você elogia meu quadril mesmo eu renegando-o. Amo sentir o cheiro do seus cabelos negros quando estou enlaçada em seu pescoço, mastigar sua bochecha, beijar o seu brinco. Quero e quero fervorosamente, mesmo você acreditando que isso tudo é fruto do meu mimo. Mas acredite, tem coisas que eu não quero mais. Não quero mais destruir todas as minhas cartas de amor. Gostaria de poder ver com clareza o porquê de tudo isso. Não quero mais confrontar minha cabeça e coração. Meus erros podem desmentir minhas palavras, mas não confie neles. As minhas palavras são tradutoras dos meus sentimentos, que pulsam, esperneiam, gritam, mas que ainda não conseguiram aprender a se expressar de outra maneira.
Sinto falta de te ouvir, mesmo quando eu não prestava atenção. Sinto falta do que ainda não vivemos, da Argentina, seus cafés e cinematecas. Da espuma do capuccino que eu viria a tomar enquanto apertaria suas mãos, tão maiores que as minhas. E como você é lindo quando me ensina aquilo que mais sabe, sua excitação quando vai buscar aquele livro ou me mostrar aquela música. Ah, como somos nós. Somos nós regados a muito Vinícius e a poesia, somos nós embalados nas nossas manias, que hoje são mais como rituais. E como não iria lembrar da maneira que você tempera meu corpo e alimenta minha alma. Agora entendo porque é tão difícil escrever para você, porque eu sempre tive medo de não estar ao seu alcance, de não descrever as minúcias que para nós são tão essenciais, porém ao mesmo tempo precisava sintetizar tudo para que esse texto existisse. E ele agora está, metade no papel e metade em meu ventre. Junto do meu coração e nas lágrimas que surgem sem serem chamadas. Nesse gostar que é pouco por não abranger todas as linhas, mas no amar que tem medo de virar livro.